Voltar

Uso de dados na educação permite conhecer a realidade do ensino e planejar ações

O uso de dados é de extrema importância para a gestão em qualquer área e, na educação em geral, e no ensino de língua estrangeira, em particular, isso não é diferente. Tanto no setor público quanto no privado, no âmbito de escolas ou de sistemas educacionais, a análise de dados, como desempenho dos alunos em avaliações, presença em aulas e evasão, possibilita que o gestor tenha acesso a um conjunto de informações e cenários, que orienta a tomada de decisões e a adoção de ações e intervenções, com vistas à melhoria do processo de ensino e aprendizagem. 

No âmbito governamental, os dados são relevantes para guiar políticas públicas. Os resultados de exames nacionais, como a Prova Brasil e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por exemplo, indicam as regiões que precisam de maior atenção em relação a verbas, formação de professores e apoio aos estudantes.

“A triangulação desses dados [educacionais] com indicadores socioeconômicos como de desemprego e violência pode ainda trazer informações para a adoção de programas sociais que vão além da escola e podem contribuir para o melhor desempenho escolar dos alunos daquela comunidade”, diz Isabela Villas Boas, sócia-diretora da Troika, consultoria de projetos educacionais, em São Paulo (SP).

A análise de dados educacionais pode não ser tão simples, mas algumas iniciativas facilitam o acesso e a visualização dessas informações. A plataforma QEdu, por exemplo, compila dados de diversas fontes oficiais, como a Prova Brasil, o Censo Escolar, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o Enem. As informações podem ser acessadas nos níveis da escola, cidade, estado e para o Brasil, possibilitando comparações de indicadores ao longo do tempo. Outro exemplo, na esfera governamental, é o Portal de Dados Abertos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, onde é possível encontrar informações sobre indicadores educacionais, escolas e matrículas da rede estadual de ensino. 

O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, disponibiliza o buscador Escolha a Escola, que compila indicadores de qualidade e de infraestrutura de 135 mil escolas públicas e particulares do país. O oferecimento de ensino de idiomas, e de inglês especificamente, é um dos critérios oferecidos para a busca de escolas no site. 

Indicadores no ensino de inglês

Dados sobre a língua inglesa também podem ser utilizados para entender melhor o cenário e buscar melhorias para uma maior da qualidade do ensino do idioma. O British Council, uma das instituições parceiras do programa Skills for Prosperity realizado pelo governo britânico no Brasil, já fez diversos estudos com base em dados sobre o ensino de inglês no país. A pesquisa “Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil”, de 2014, buscou entender o cenário e as práticas mais comuns no mercado brasileiro, com foco em aspectos voltados ao trabalho e à empregabilidade, revelando que apenas 5,1% dos brasilerios com 16 anos ou mais afirmava possuir algum conhecimento de inglês.

O estudo “Políticas públicas para o ensino de inglês“, de 2019, trouxe um panorama e experiências de ensino do idioma nas redes estaduais. Os dados analisados permitiram mapear o quanto os estados brasileiros estruturaram e consolidaram o ensino da língua inglesa, além de trazer exemplos de boas práticas que acontecem Brasil afora.

Isabela, que também foi gerente corporativa acadêmica da Casa Thomas Jefferson, escola de inglês sem fins lucrativos em Brasília (DF), traz alguns exemplos de como os dados podem auxiliar no ensino de línguas. “Podemos tirar conclusões sobre a eficácia de uma determinada metodologia de ensino, por exemplo, com dados sobre o desempenho dos alunos após ciclos de aprendizagem. Já dados sobre a capacitação e nível de proficiência dos professores informam decisões sobre programas de formação continuada”, completa.

Uso de diferentes fontes

Um fator importante ao trabalhar com dados é contemplar diferentes aspectos do que se quer medir para a interpretação não ficar enviesada. Por exemplo, para avaliar a efetividade do ensino, além dos resultados dos alunos em exames, pode-se cruzar essas informações com outras, como assiduidade, nível socioeconômico e performance dos professores.

No caso de troca de materiais didáticos em um curso de inglês, por exemplo, é possível analisar o impacto dessa mudança nos resultados dos alunos, considerando também dados sobre a satisfação dos estudantes e dos professores com o material antigo e com o novo. Segundo Isabela, outra informação importante seria o índice de retenção antes e depois da adoção do novo material ou de alguma inovação no curso. “Se realizamos mudanças e não medimos os resultados, não temos como saber se elas foram efetivas ou não”, afirma.

Ela conta que programas internacionais de bolsas de estudo de inglês para estudantes em desvantagem usam indicadores de desempenho dos alunos para avaliar a efetividade da iniciativa. Pode ainda haver o acompanhamento dos alunos egressos para dimensionar o impacto do programa na vida educacional e profissional desses estudantes. “Só com esses dados, medindo os ganhos de aprendizagem dos alunos e o impacto deles em suas vidas, é que órgãos de fomento podem tomar decisões sobre a continuidade dos programas, alterações que precisam ser feitas e efetividade dos parceiros, entre outras”.

Dados guiando ações

Outro ponto fundamental é que não basta apenas coletar dados e transformá-los em informação. É necessário estabelecer metas de curto, médio e longo prazo, para implementar melhorias e seguir um processo contínuo de monitoramento desses indicadores.

É isso que faz a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, que faz parte do programa Skills for Prosperity e integra uma rede com 79 municípios, 347 escolas, 12 centros educacionais e 94 extensões (partes de escolas que funcionam fazendas, assentamentos rurais ou comunidades indígenas). Por meio de um sistema informatizado, o Sistema de Gestão de Dados Escolares (SGDE), a secretaria dispõe de informações por aluno, turma, escola, município e regional, chegando ao estado como um todo. Entre os dados estão notas dos estudantes em todas as disciplinas, com atualização bimestral, e registro de presença em um diário on-line, ambos preenchidos diretamente pelos professores. 

“Se há um aluno que está com muita falta, já é acionado um setor da secretaria responsável pela busca ativa desse estudante e por saber porque ele não está assistindo às aulas”, diz Paulo Cezar Rodrigues dos Santos, Superintendente de Informação e Tecnologia da secretaria. 

Da mesma forma, no final do semestre, há um mapa mostrando o desempenho de todos os alunos, de todas as turmas, se cada um deles está indo bem ou se há risco de reprovação em alguma disciplina. “Isso facilita o trabalho do gestor e da coordenação pedagógica da escola em tomar conhecimento da situação e fazer uma intervenção. E também da secretaria de educação, para planejar uma ação mais ampla, caso seja necessária”, ressalta Paulo Cezar. 

Ele dá um exemplo do que ocorreu durante a pandemia, em 2020. “No início, precisávamos saber como estava o atendimento aos alunos da rede — se estavam acompanhando as aulas via recursos tecnológicos, material impresso, modo híbrido ou se não estavam sendo atendidos. Por meio do sistema, os professores responderam essas questões, aluno por aluno, de todas as suas turmas. Então, tivemos um indicador muito preciso da rede estadual, que foi fundamental para repensar muitos aspectos de como conduzir o ensino nesse período de pandemia.”

No final do ano, conta Paulo Cezar, foi preciso saber quantos alunos estavam acima ou abaixo da média e quantos ainda não tinham sido avaliados, por não estarem comparecendo às unidades escolares nem desenvolvendo atividades remotamente.

“Essas ações foram essenciais para o sucesso da rede. Por incrível que pareça, em um ano de pandemia, tivemos um índice de reprovação menor do que em anos anteriores. Isso se deu, muito por conta da análise desses dados e das intervenções que promovemos”, destaca.

Para ele, trabalhar com dados e indicadores é fundamental para o avanço da educação. “É preciso saber muito claramente a situação da sua rede para atuar na solução de problemas. E não tem como fazer isso se não tivermos dados. Mas é importante que essa análise dos dados gere uma ação.”

 

Como iniciar o uso de dados

Isabela Villas Boas mostra um passo a passo e um exemplo prático para começar a trabalhar com dados na gestão escolar

Reflexão sobre o tema

O primeiro ponto é refletir sobre o que se quer. Para isso, pergunte-se: 

  • Quais são os indicadores que eu quero monitorar?
  • Quais são os dados que me ajudarão a monitorar cada um desses indicadores?
  • Com qual frequência vou monitorar esses indicadores?
  • Como será a coleta de dados?
  • Como transformar esses dados em informação?
  • O que farei com o resultado obtido?

Envolvimento da equipe

  • O ideal é envolver toda a equipe pedagógica na elaboração desse planejamento de gestão. Quanto mais colaborativa for essa gestão, mais envolvidos todos estarão na obtenção de melhores resultados. 
  • É importante também fazer uso de vários tipos de dados e triangulá-los, para que o indicador possa ser analisado sob diferentes prismas.

Exemplo prático

  • Indicador: resultados do ensino.
  • Dados: notas dos alunos nas avaliações da escola, performance dos alunos em avaliações nacionais (se for o caso), desempenho dos professores (observações de aula), percepção dos alunos e pais sobre os resultados.
  • Análise: correlação entre resultados de avaliações da escola e resultados de avaliações nacionais; correlação entre o desempenho dos professores e os resultados dos alunos; correlação desses dados com resultados de questionário aplicado a pais e alunos (pode ser feito pela internet, usando ferramentas digitais).
  • Frequência: ao final de cada semestre.
  • Plano de ação para melhorar os resultados: estabelecer uma meta e planejar a intervenção (por meio da formação continuada dos professores, reformulação da proposta de ensino, reformulação dos instrumentos avaliativos, por exemplo). Monitorar o indicador, coletando e analisando os dados novamente, e verificar se a meta foi atingida. 
  • Atenção: é importante também se aprofundar na análise do problema e fazer uso de métodos qualitativos. Por exemplo, após a aplicação de questionários para pais e alunos, é possível se aprofundar em algumas questões apontadas nos resultados por meio de grupos focais (entrevistas em grupo).