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Uma régua para orientar a aprendizagem de inglês

O mundo globalizado exige uma educação orientada por objetivos que vão além das fronteiras nacionais, que prepare cidadãos de uma nação para interagir com cidadãos de todas as nações. E, condição fundamental para cumprir esse objetivo, naturalmente, é o domínio de línguas adicionais, particularmente o inglês, idioma mais falado no planeta, entre falantes nativos e não nativos. Este é o ponto de partida que levou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a planejar a inclusão, a partir de 2025, da avaliação da língua inglesa no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Os testes de inglês serão aplicados em países em que esse idioma não é o principal utilizado na educação escolar, e o Brasil estuda a participação nessa avaliação inédita.

Os exames do Pisa são aplicados a cada três anos a estudantes de escolas públicas e privadas de 15 anos de idade. Na última edição, de 2018, no total, cerca de 600 mil estudantes de 79 países foram avaliados em três áreas de conhecimento, já tradicionais – leitura, ciências e matemática. O inglês será a quarta área abordada. A primeira prova, em 2025, terá como foco as competências em leitura (reading), produção oral (speaking) e compreensão de textos falados (listening). A OCDE avalia incluir a avaliação de outras competências, bem como de outras línguas, em edições posteriores.

A comparação da proficiência em língua inglesa dos alunos de diferentes países funcionará como um levantamento estatístico da qualidade do ensino do idioma adicional de cada nação. E isso não importa apenas para o futuro, mas para hoje mesmo. Afinal, os jovens já vivem em um mundo globalizado, o que implica que eles devem compreender o mundo como um todo e competir num mercado de trabalho também internacional. 

Diagnóstico e políticas públicas

O Pisa não apenas medirá a proficiência em língua inglesa e montará um ranking de países, como também fará um raio-X da maneira como o sistema educacional de cada país organiza o ensino do idioma. Assim como acontece na avaliação das demais áreas do conhecimento, relatórios baseados em questionários respondidos por gestores e professores deverão expor o contexto em que o ensino se dá, pela análise de fatores locais e nacionais que influem no aprendizado – características socioeconômicas dos estudantes, práticas de ensino, infraestrutura das escolas, formação de professores e financiamento público ou privado, entre outros. 

Segundo Catalina Covacevich, analista do Pisa na OCDE, ‘as políticas públicas em educação podem precisar de revisão e adequação de abordagens que contemplem competências exigidas dos estudantes conforme a realidade se altera’. Nesse sentido, o diagnóstico nacional e a análise de programas e práticas bem sucedidas de outros países apontarão pontos fortes e fracos no ensino de idiomas adicionais, bem como discrepâncias dentro do próprio sistema educacional. Com essa informação, é possível não apenas melhorar o desempenho dos estudantes em geral, como ainda monitorar outros resultados importantes para a sociedade, como a equidade na aprendizagem – por exemplo, entre alunos de escolas públicas e particulares, urbanas e rurais. 

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por exemplo, alunos de escolas públicas apresentam um desempenho médio inferior aos dos colégios particulares, e essa diferença é maior na prova de inglês, quando comparada a outras disciplinas, de acordo com análise publicada na Folha de S. Paulo. De acordo com Cintia Toth Gonçalves, gerente sênior para o inglês do British Council, em entrevista para o jornal, ‘o inglês é um marcador social’. Essa diferença de desempenho entre estudantes de escolas públicas e privadas no componente da língua inglesa pode acabar se tornando um entrave para o acesso ao ensino superior, exacerbando as desigualdades e as diferenças de oportunidades entre os jovens.

Mas como essa análise pode ajudar a melhorar o aproveitamento de recursos e o tempo em sala de aula de maneira mais eficiente? E que recursos são esses que merecem ser adequados? Covacevich responde: ‘A análise fornece uma base de apoio, de modo a garantir uma aprendizagem efetiva. Algumas nações investem na formação de professores, outras apoiam-se em professores que têm o inglês como língua nativa; alguns sistemas têm foco no conhecimento de gramática e vocabulário, enquanto outros dão preferência a incorporar o idioma em contextos históricos e culturais. Comparando o desempenho de diferentes nações com suas práticas, os responsáveis por definir políticas públicas podem reavaliar o cenário de seu próprio país e escolher o melhor caminho.’  

Importância para o Brasil

O Brasil valoriza o Pisa como referência externa de reconhecimento internacional. Tanto é que uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), definida em lei de 2014, é melhorar o desempenho dos estudantes nos exames. O país já tem, também, uma história nessa avaliação – participa do programa desde sua criação, em 2000, e, a cada edição, aumenta a amostra de estudantes nele envolvidos. Em 2018, foram cerca de 10,7 mil alunos da Educação Básica matriculados em quase 600 escolas públicas e privadas, rurais e urbanas, das 27 unidades da federação.

Para Gladys Quevedo, professora do departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora em avaliação de línguas estrangeiras, ‘as escolas privadas brasileiras têm maior preocupação em dar resposta às demandas da sociedade. Já as públicas dependem mais das políticas de Estado’. Assim, a avaliação e o diagnóstico com base em parâmetros internacionais — como é o caso do Pisa — constituem bússola especialmente importante para as escolas públicas (veja outra matéria do Observatório sobre o tema). 

O desempenho depende, também, do padrão-meta definido nessas políticas. ‘Alguns países adotam como parâmetro o que o Pisa considera como faixa intermediária de proficiência, em que os alunos conseguem escrever textos simples sobre assuntos de seu interesse e falar sobre si mesmos e suas experiências. O foco, nesse nível, é a comunicação, e não a precisão de gramática e vocabulário. Acho que esse patamar é atingível no Brasil. Seria importante, também, levar em conta a realidade em que se encontra a escola, ou seja, a inclusão de temáticas locais, de interesse de alunos e professores’, diz a pesquisadora. 

Segundo Quevedo, um dos pontos do Pisa particularmente positivos para o Brasil é que os três componentes avaliados – leitura, produção oral e compreensão da fala – coincidem com três dos cinco eixos definidos para o aprendizado de inglês no Ensino Fundamental, na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). ‘Já temos na BNCC as habilidades que devem ser trabalhadas com os alunos. A análise dos resultados de uma avaliação externa e internacional, como o Pisa, levanta reflexões que poderão ser traduzidas em aprimoramentos’, diz a pesquisadora. 

Já para o Ensino Médio, etapa na qual a BNCC é menos específica, fica a cargo de cada professor e cada escola traduzir as competências específicas e habilidades em objetivos de aprendizagem da língua inglesa – ou seja, não há um padrão nacional. Ainda assim, o Pisa já ajuda, de maneira indireta, na definição de um padrão. ‘O edital do Plano Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) de 2021 aponta como parâmetro para os elaboradores de materiais para o Ensino Médio os critérios de proficiência em inglês definidos no Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (CEFR, do inglês Common European Framework of Reference for Languages), que servirão de base na classificação pelo Pisa. Portanto, a simples adoção desses livros já nos coloca em um cenário mais favorável’, conclui Quevedo.