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Qual a importância da avaliação em larga escala para o ensino do inglês?

A avaliação – seja ela de pequena ou larga escala – é um elemento entre vários que, de maneira conjunta, compõem os processos educacionais. Ela tem tudo a ver com planejamento do ensino e não pode ser dissociada de fatores como a formação de professores, a didática, o currículo e o acesso à educação. No entanto, no Brasil ainda não existe um exame nacional em larga escala voltado para o ensino de inglês. Qual seria a importância de termos uma avaliação dessa natureza?

 “Quando a gente fala em avaliação em larga escala, o que a gente está querendo é ter um objetivo em nível nacional”, explica a pesquisadora e professora Gladys Quevedo-Camargo, da Universidade de Brasília (UnB). 

Uma avaliação em larga escala para o ensino da língua contribuiria para o estabelecimento de padrões: sem esse exame, acabam faltando metas e objetivos claros para orientar o ensino de inglês no país. A especialista ressalta que é importante o Brasil ter padrões adequados à sua realidade. 

“Esses padrões seriam materializados em diferentes tipos de avaliações; uma delas seria a de larga escala, em nível nacional, e depois as escalas menores”, explica. Ela esclarece que o Brasil não precisaria adotar, na íntegra, o Quadro Comum Europeu de Referência para Línguas (Common European Framework of Reference for Languages – CEFR), mas poderia tê-lo como parâmetro, levando em conta que o nosso quadro precisaria dialogar com os padrões do quadro europeu. Um desafio para isso é que os descritores do CEFR não são todos adequados à realidade brasileira. 

A pesquisadora e professora Matilde Scaramucci, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda. “A gente precisa ter um quadro nosso, que oriente as nossas metas de ensino, para o nosso contexto.

Para além de uma avaliação em larga escala, Quevedo-Camargo explica que o Brasil precisa de uma política linguística: um olhar mais amplo para as necessidades particulares locais, que poderia gerar um planejamento em várias instâncias. No caso de um país como o nosso, uma política linguística incluiria a preservação de línguas como as indígenas e quilombolas; deveria ter em conta o fato de sermos o único falante de português entre os países da América Latina e, também, desenvolver ações em vários níveis, que iriam além da implantação da obrigatoriedade do ensino de inglês a partir do 6º ano, por exemplo. 

Quevedo-Camargo destaca, ainda, que falta no Brasil uma instituição que se dedique a avaliar o ensino de línguas estrangeiras. “Em outros países, eles têm uma instituição especializada nessa questão da avaliação; os Estados Unidos têm, a Alemanha, a Inglaterra, a Espanha, Portugal”, lembra.

O ensino de língua inglesa, especificamente, também demanda um planejamento cuidadoso. “A gente nunca teve uma política muito clara com relação ao ensino do inglês”, esclarece Scaramucci, destacando que agora temos a BNCC para redirecionar os currículos. “O ideal é ter um currículo bem orientado e um exame em larga escala retomando esse currículo. O que acontece quando você tem isso? Você potencializa os efeitos desse currículo, porque junta o que ele está propondo – que são objetivos de ensino, e retoma esses objetivos no exame”, explica a especialista. 

“Exames são instrumentos de mudança”

Frequentemente, decisões sobre o ensino acabam sendo tomadas depois da avaliação, a partir dos resultados que aparecem. O fenômeno é chamado de efeito retroativo ou washback. Desse modo, os exames podem ter mais poder que o próprio currículo, lembra Scaramucci. “Você pode estipular um currículo, mas não fazer um exame no final; assim, o currículo não vai ser implementado”, indica a especialista. 

Ela destaca, ainda, que é inevitável que as pessoas se preparem para os exames existentes, quando essas provas têm uma relevância significativa para a sua vida. E essa preparação também pode levar o aluno a aprender. Porém, para que o efeito do exame sobre a aprendizagem seja positivo, é preciso que a avaliação tenha qualidade e que os professores sejam bem formados para serem capazes de promover a preparação para o exame da melhor maneira possível. 

Como a pesquisadora ressalta, é essencial que os professores compreendam a proposta da avaliação. “Exames são instrumentos de mudança e de redirecionamento, mas, para que tenham bons efeitos, positivos, é preciso tratar da formação do professor ao mesmo tempo”, reforça Scaramucci.

Inglês no PISA

Está previsto um componente de inglês para a edição de 2024 do PISA, que foi adiada para 2025 devido à pandemia de COVID-19. O exame acontece a cada três anos, sendo que, a cada edição, são mantidos fixos alguns componentes, enquanto um novo é adicionado. Gladys Quevedo-Camargo acredita, porém, que um exame como o PISA não tem um grande potencial para a organização do conhecimento, o planejamento a longo prazo e o estabelecimento de metas e objetivos. O que pode ocorrer, ela pontua, é uma impulsão de ações depois da prova, a partir da divulgação dos resultados. “Os exames, para fazerem diferença para a aprendizagem, precisam fazer diferença para a vida dos envolvidos. Nesse sentido, ele (o PISA) não é um exame de alta relevância”, complementa Scaramucci. 

Especialistas têm visões diferentes sobre a avaliação e a maneira como ela se conecta com os outros processos educacionais. “Eu faço parte de um grupo de pessoas que acha que a avaliação é o carro-chefe da educação, não é um apêndice que vem depois”, explica Quevedo-Camargo. “Se a gente trabalhasse direito com avaliação, ela ocasionaria um efeito cascata em que teria parâmetros, objetivos, orientações. A grande reclamação dos professores é não ter um guia mais firme do que têm que fazer”, complementa.