Voltar

O papel da formação do professor de inglês de olho na inclusão e na diversidade

“Diferença” é um termo geralmente associado, por educadores, a problemas a serem resolvidos na escola, sejam eles relativos “à deficiência, ao déficit cultural ou à desigualdade”. Estas são palavras da pesquisadora Vera Maria Candau, especializada em interculturalidade na educação (acesse o estudo ao final deste texto, em “Talvez te interesse”). “Somente em poucos depoimentos a diferença é articulada a identidades plurais que enriquecem os processos pedagógicos e devem ser reconhecidas e valorizadas”, complementa. Como se pode articular, de forma positiva, a diversidade na sala de aula de ensino de inglês, acolhendo as diferenças e trabalhando também pela inclusão? Como a formação de professores atua nesse processo?

“Fiquei quatro anos na universidade e em nenhum momento fui alertada para o fato de que um dia eu poderia ter um aluno com algum tipo de deficiência”, conta a professora e pesquisadora Betânia Medrado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Há 13 anos ela vem se aprofundando na questão do ensino de inglês para pessoas cegas ou com baixa visão. Durante sua trajetória, contribuiu para as modificações pelas quais o currículo de Letras da UFPB passou – hoje, o curso incorpora aspectos da educação inclusiva em todas as disciplinas de estágio supervisionado. 

De um modo geral, a discussão sobre inclusão surgiu antes no campo da Educação, levando mais tempo para aparecer no de Letras/Línguas Estrangeiras, como explica a professora. “A obrigatoriedade do ensino de Libras nos cursos de licenciatura provocou, de certa forma, esta consciência, além de mudanças nas políticas que colocaram os alunos surdos em classes regulares”, complementa a professora e pesquisadora Telma Gimenez, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Abordar o ensino para todos traz à tona uma esfera ainda mais ampla de debate. Precisamos discutir a inclusão de alunos com deficiência e também a diversidade. “Há diversidade em termos de características físicas e de identidades sociais”, explica Gimenez. Estamos falando de salas de aula em que se encontram alunos de todas as raças/etnias, gêneros, idades, religiões, perfis sociais e culturais. Vale ressaltar que existem especificidades até mesmo dentro de grupos que parecem homogêneos, mas não são –  a má compreensão nesse sentido acontece especialmente com relação à deficiência, no caso dos cegos e das pessoas com baixa visão ou dos autistas, por exemplo.

Aparecida de Jesus Ferreira, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que é referência nas questões raciais relativas a ensino de inglês, reforça que a formação deve preparar os professores para lidar com a diversidade em sala de aula e com os desafios cotidianos que dela se originam. Mas ela demonstra que, além disso, um olhar atento para a própria experiência pode ser um ponto de partida. Aparecida explica que tem procurado tratar da diversidade de maneira ampla em sua prática, sendo o seu foco principal a questão racial; por isso, não se sentiria hábil a falar com a mesma propriedade sobre questões relacionadas especificamente à inclusão de alunos com deficiência. No entanto, ela conta como agiu quando precisou ensinar a uma aluna surda: adotando o caminho do diálogo, reuniu-se com ela para que a própria estudante pudesse expressar qual seria a melhor maneira de Aparecida atendê-la em seu processo de aprendizagem.

A trajetória de Betânia na questão da inclusão de pessoas com deficiência visual também começou com uma situação inesperada. Ao terminar o doutorado, em 2007, foi convidada a dar aulas em uma escola modelo de educação básica em João Pessoa. Uma professora com quem ela trabalhava na instituição recorreu a Betânia quando precisou dar aulas a dois alunos cegos e não sabia como atendê-los da melhor maneira. “Essa professora me inspirou a fazer o que venho fazendo nos últimos 13 anos”, conta. A professora em questão não era iniciante: com 25 anos de sala de aula, estava prestes a se aposentar. Assim como Betânia, não tinha recebido uma formação adequada para lidar com a diversidade na sala de aula. As duas começaram, juntas, a pôr em prática várias ações no dia a dia para atender aos alunos, observando aquilo que traria melhores resultados. A partir do acúmulo de experiências como essas, em dado momento de seu percurso Betânia passou a transformar tais questões em seus projetos de pesquisa. 

Formação traz segurança ao professor

No Brasil, temos leis que garantem o acesso de todo estudante à educação. Por outro lado, o acolhimento das especificidades de cada aluno precisa ser posto, efetivamente, em prática nos ambientes de ensino-aprendizagem. A formação do professor pode não dar conta de toda a amplitude que a inclusão e a diversidade envolvem, mas é importante para deixar o docente seguro para lidar com as variadas situações que possivelmente vai enfrentar na sala de aula, como explica Aparecida Ferreira.

Ela ressalta que as deficiências demandam um preparo bastante específico para que a inclusão dos alunos seja efetiva – o que não prescinde de recursos como a presença de mediadores em sala de aula para um atendimento adequado das necessidades dos estudantes. Mas, reforça que há certas questões basilares quando se trata de inclusão em geral – e sua perspectiva remete ao acolhimento amplo da diferença, no sentido das  identidades plurais a que Vera Candau se refere. Entre os aspectos citados por Aparecida estão o conceito de identidade racial, as questões de gênero e de classe social e de sexualidade. A pesquisadora ressalta que a formação é, então, exatamente o processo capaz de despertar os professores para ideias e conceitos essenciais que, uma vez assimilados, passam a fazer parte de seu repertório enquanto educadores e cidadãos. Com isso, eles se tornam capazes de lidar com os variados cenários que aparecem no cotidiano da docência.

Ainda segundo Ferreira, quando se conscientizam para a diversidade, os professores passam a se preocupar com a representatividade de uma maneira que não regride, não tem volta. Com isso, passam a trazer textos de autores negros e negras para a sala de aula, por exemplo; percebem que podem utilizar notícias de jornais de vários lugares do mundo para debates contemporâneos; enfim, conseguem se mostrar mais criativos em sua prática, colaborando para acolher uma multiplicidade de estudantes. Aparecida ressalta outro ponto essencial para que a escola seja bem-sucedida no acolhimento da diversidade: a gestão da instituição deve estar atenta, para ser capaz de identificar dificuldades, monitorar processos e promover projetos transdisciplinares. Afinal, as questões da diversidade perpassam todas as disciplinas.