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O material didático como aliado na promoção da diversidade em ELT

O material didático é um elemento pertinente quando se trata de promover a diversidade no ensino da língua inglesa (ELT, de English Language Teaching). Dependendo da maneira como é produzido e utilizado, seu conteúdo pode ser um veículo a promover a representatividade, reduzindo estereótipos e preconceitos ou, pelo contrário, pode contribuir para a perpetuação da sub-representação ou da representação enviesada de determinados grupos. É preciso avaliar o papel desse conteúdo no cotidiano da sala de aula e identificar as oportunidades que podem surgir.

O debate sobre a questão racial é um dos que emergem quando se trata do ensino de inglês e  também da seleção e do uso de materiais didáticos. “Um letramento racial crítico é necessário para que as pessoas entendam como são educadas a vida inteira para ver a pessoa branca como norma”, alerta a professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Aparecida de Jesus Ferreira, autora de vários livros e artigos publicados no Brasil e no exterior. Segundo a especialista, mesmo lecionando num país de população majoritariamente negra como o Brasil, o professor pode acabar colaborando para perpetuar o racismo estrutural a partir das práticas cotidianas e pedagógicas dele. Ainda que nem sempre isso seja intencional, é preciso se perguntar: “A partir de mim, o que posso fazer para que tenhamos uma sociedade mais igualitária, mais justa?”, ela indica. E o material tem tudo a ver com isso. “Se a disciplina de língua inglesa trabalha com a mediação de materiais como textos, imagens, vídeos e áudio, por que, então, não utilizar conteúdos que sejam relevantes para o contexto do aluno que está em sala?”, questiona. 

Material didático precisa acompanhar a realidade do aluno

O pesquisador Domingos Sávio Siqueira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), refere-se a materiais didáticos estereotipados como “o mundo plástico do material didático”. O professor destaca que esses materiais não dariam conta de uma pedagogia crítica da língua inglesa. Como exemplo, vale observar o caso dos livros. “Nos livros nacionais, houve um avanço grande por conta do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático)”, ressalta o pesquisador. “Os materiais didáticos, quando feitos em níveis globais, pecam por generalizações”, complementa. Segundo Domingos, um dos fatores a agir contra a ampliação dos materiais é que as editoras não costumam ser abertas a para aliar suas necessidades de mercado às necessidades de flexibilizar os conteúdos. 

“Os materiais precisam trazer o mundo real, não o mundo idealizado”, diz Siqueira. Além disso, relacionando essas necessidades à perspectiva do inglês como língua franca, o professor salienta a invisibilidade de países em que o inglês é a segunda língua, como a Jamaica, e até mesmo de países de língua inglesa como Austrália, Nova Zelândia e Canadá; todos deveriam aparecer com mais representatividade, o que não acontece porque foram eleitas duas vertentes hegemônicas.

Idealmente, na visão de Domingos, há materiais que podem ser modificados para uma ELF awareness (leia sobre esse termo no texto sobre o inglês como língua franca, neste link). Além disso, ele ressalta que o professor é que deveria poder escolher, entre uma gama variada de livros, aquele que mais se aproxima de sua realidade para usá-lo com seus alunos. Esse material poderia também passar por criações do professor, desde que ele tivesse essa consciência crítica. “Ele pode eliminar questões, pode expandir questões, adicionar materiais que ele criou”, exemplifica, ressaltando que em Salvador, por exemplo – cidade de população majoritariamente negra – um livro que traz essencialmente pessoas brancas não contribui para que o aluno se sinta representado. 

Em busca de mais representatividade em ELT, professores criam e-books didáticos

Professora de inglês há 20 anos e sempre bastante envolvida com projetos sociais, Ilá Coimbra conta que, em dado momento de sua prática, sentiu falta de ser “formadora, além de professora”. Em 2018, ela lançou um e-book didático para o ensino do inglês em parceria com James Taylor, também professor de inglês, de nacionalidade britânica. O livro, intitulado Raise Up!, surgiu da necessidade que ambos identificaram de produzir materiais didáticos capazes de dar conta da diversidade no ensino da língua. O segundo e-book criado por eles foi lançado em junho deste ano.

Ilá destaca que há inúmeros grupos que não costumam ser retratados nos livros ou, quando aparecem, surgem estereotipados. Ela cita os grupos LGBT, as pessoas acima dos 60 anos de idade, aquelas com alguma deficiência, as pessoas negras, as populações indígenas, as mulheres, os refugiados, entre outros. As variedades de classes sociais também são sub-representadas. “Houve progressos nos últimos anos, mas a predominância é de pessoas brancas, entre 20 e 30 anos de idade”, indica a professora. “Muitos grupos estão estereotipados – por exemplo, as pessoas com mais idade estão sempre nos papéis de avôs ou avós”. Também não é incomum pessoas mais velhas aparecerem numa posição de serem capazes de superar algo apesar da idade.

Ao confeccionar os materiais, o foco de Ilá e James não é em uma mudança nas estruturas da língua que são ensinadas, mas nos casos usados para ilustrar as lições. Aparecem, por exemplo, uma troca de mensagens entre refugiados, famílias que incluem homossexuais e invenções de autoria de mulheres negras. O resultado é bastante positivo. “O aluno precisa saber que o inglês é para ele. Quando o aluno começa a se ver naquele material, ele passa a sentir que aquele é o lugar dele, que ele pode fazer. A motivação é importante”, lembra Ilá Coimbra.

Inspirações

RAISE UP! Os e-books produzidos por Ilá Coimbra e James Taylor são feitos por voluntários, convidados por eles, no intuito de que sejam contemplados os mais variados lugares de fala. Os livros são vendidos a cinco libras pelo site, e o valor arrecadado não gera lucro: a renda é revertida para uma instituição chamada CASA, localizada em São Paulo. O local acolhe a população LGBT que foi expulsa do lar pela família. No local, onde são ministrados cursos direcionados à comunidade LGBT, é oferecido o English to Transform – projeto que nasceu para ensinar inglês justamente para essa população. A renda do livro 2 irá para o projeto Las Patronas, no México, que prepara e entrega refeições nos trens de imigrantes em Santa Cruz. 

Acesse o site do projeto Raise Up!  https://raiseupforelt.com/