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O inglês para o dia a dia

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) oferece uma nova maneira para se pensar o ensino de inglês nas escolas brasileiras. A partir do foco na sua função social e política, ele passa a ser tratado, no documento, não mais como língua estrangeira, mas como língua franca. Com essa mudança, especialistas acreditam que se abre a oportunidade para um ensino de inglês mais flexível, capaz de promover a interculturalidade e o protagonismo. Num contexto em que a comunicação é o ponto central, ganham destaque a capacidade crítica do aluno e do professor e as fronteiras entre sala de aula e cotidiano são rompidas, enquanto os estereótipos perdem espaço e o significado de proficiência é repensado.

“Por que a educação deveria tratar o inglês como língua estrangeira?”, questiona a pesquisadora Telma Gimenez, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Afinal, como ela destaca, a maioria dos alunos que estudarem inglês no Brasil deverão vir a falar, justamente, com falantes não nativos, assim como eles. O inglês como língua franca, ou simplesmente ILF, se aproxima dessa realidade. Os usos contemporâneos de inglês em contextos multilíngues e multiculturais demandam que sejam repensados os conceitos que têm orientado seu ensino como língua estrangeira. 

A ideia de língua franca tem origem na Antiguidade. Mas, para se referir ao inglês, o conceito começou a ser pesquisado na década de 1980. Passou por diversas fases e críticas e segue ganhando espaço entre pesquisadores de todo o mundo. Como língua franca, o inglês assume o papel de um ponto de contato, capaz de proporcionar a comunicação entre falantes de diferentes localidades e que têm línguas nativas variadas. Por isso, o ILF não deve ser visto como uma variedade de inglês para somar com as já existentes; trata-se de um status que o inglês adquire como língua de contato no momento da comunicação, como explica a pesquisadora Ana Paula Martinez Duboc, da Universidade de São Paulo (USP). 

Duboc destaca que os pesquisadores brasileiros, com sua produção científica ao longo dos anos,  contribuíram para que se chegasse à proposta presente na Base. Ela chama de ILF made in Brazil o olhar crítico para as particularidades do ILF na realidade do nosso país (leia ao final deste texto artigo da pesquisadora sobre o tema): “É preciso entender o contexto desses usuários”, diz. “Nós, aqui no Brasil, estamos olhando para esse conceito a partir de um construto muito mais político, ideológico, em que você desafia vários pilares do tradicionalismo do ensino de língua inglesa que seria o inglês como língua estrangeira”, complementa o pesquisador Domingos Sávio Siqueira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

De acordo com Siqueira, o conceito passou por várias fases até que se chegasse à noção de função da língua em vez de variação, que ele defende estar bem definida na BNCC. Ainda assim, a Base parece deixar margem para diferentes apropriações do conceito de ILF trazido. “Penso que a interpretação (feita do inglês como língua franca na BNCC) foi a do uso, ele é usado em vários lugares do mundo”, explica Gimenez. Para Duboc, no documento a apresentação do conceito contrasta com os quadros que indicam como ensinar. 

Uma nova postura em relação ao inglês

Mesmo que o conceito de inglês como língua franca possa ser interpretado de maneiras diferentes (acesse artigo sobre o assunto no rodapé deste texto, em “Veja também”), o enfoque dado pela Base pode trazer um impacto positivo. Ana Paula acredita que o ILF pode ser um caminho para superar a ideia da língua estrangeira como a língua do outro, dando espaço a um conceito de inglês mais flexível, ou mais “ventilado”, palavra usada por ela. Telma concorda com essas novas possibilidades de abertura. “É, sem dúvida, um passo adiante, porque desestabiliza a ideia de que só existe o inglês americano ou o britânico”, ressalta. 

Para Domingos Sávio, a tradição do ensino de línguas é muito enraizada na imitação do falante ideal, o qual geralmente é estereotipado. Enquanto isso, a realidade da sala de aula é viva, com alunos trazendo cada vez mais as suas experiências, os seus repertórios linguísticos e culturais. Eles têm contato com essa diversidade quando assistem a uma série ou participam de uma rede social on-line, por exemplo. Ele ressalta que o inglês como LF torna visível a questão da interculturalidade, um componente importante para uma língua que não é localizada em um único território.

Como Gimenez explica, questionar o ensino que cobra do aluno uma produção idêntica à de um falante nativo idealizado e passar a expor esse aprendiz a um uso real da língua é importante para que ele se reconheça como um protagonista. Por exemplo, o aluno pode apresentar uma pronúncia diferente daquela que falantes nativos usariam, num determinado momento, mas se comunicar bem ainda assim; nesse caso, se o professor reconhece seu esforço, ele ajuda o aluno a entender que seu uso de inglês pode ser legítimo. “A proficiência é ressignificada; você pode ser proficiente em um certo contexto e em outro, não”, complementa a pesquisadora. Nesse cenário, em que se questiona a aprendizagem até então baseada essencialmente na precisão, na proficiência medida pelos padrões de falantes nativos e na linearidade, a inteligibilidade é valorizada, assim como as diferenças. Duboc defende que essa fluidez é libertadora, e que aprender inglês passa a significar aprender sobre si mesmo e sobre o outro. 

Se as perspectivas são positivas, por outro lado geram desafios para se encontrar um equilíbrio entre a visão de ILF e as abordagens mais tradicionais para o ensino da língua. Torna-se necessário repensar aspectos como a avaliação, por exemplo, que teria que acompanhar a visão pedagógica de ensino, como Gimenez ressalta. Para Siqueira, uma questão importante é a dos materiais didáticos. Ele afirma que, nesses recursos, comumente as culturas minoritárias não aparecem, e os exemplos costumam ser restritos ao inglês americano e britânico. Desse modo, para se alinhar à interculturalidade com desdobramentos práticos para a sala de aula, o professor precisa ter uma consciência crítica, deve ter “ELF awareness” – conceito introduzido pelo pesquisador grego Nicos Sifakis: ou seja, estar atento a essas necessidades. Desse modo, ao ensinar, pode escolher um texto que reflita melhor a realidade dos alunos de determinada turma, por exemplo; pode trazer para a dinâmica da aula o inglês tal como é usado por diferentes falantes ao redor do mundo, fugindo da normatização linguística e cultural característica do ensino de inglês como língua estrangeira.