Voltar

O inglês necessário para se inserir no mundo

A educação vem cada vez mais despertando para a necessidade de um ensino interdisciplinar. Integrar conteúdos de diferentes áreas é uma forma de ampliar o conhecimento, tornando-o mais significativo e abrindo ao estudante uma visão crítica da realidade. O objetivo é preparar seres humanos para enfrentar os desafios complexos do mundo de hoje. Nesta entrevista para o Observatório para o Ensino da Língua Inglesa, a consultora em educação e inovação Giselle Santos, fundadora da Human:ia, startup voltada à acessibilidade e à combinação de inteligências tecnológicas e humana, fala sobre a importância da interdisciplinaridade no ensino do inglês, língua indispensável para a interação global.

Por que promover uma abordagem interdisciplinar no ensino da língua inglesa?

Há décadas, o ensino da língua inglesa é tratado de maneira fragmentada. As classes, as aulas e os materiais didáticos são tradicionalmente divididos por níveis — iniciante, intermediário, avançado —, ou fechados a fins ou temas específicos. Isso não cabe mais no mundo atual. É preciso inovar. Aí, quando falamos em inovação, costumamos pensar em recursos tecnológicos. Já tivemos o tempo das fitas cassete e dos laboratórios com computadores, temos hoje as videoaulas e lousas eletrônicas. Mas a tecnologia é ferramenta, não fórmula mágica de aprendizagem. A grande inovação que vale agora não vem da troca de ferramentas, mas da aplicabilidade da língua que motiva as pessoas ao aprendizado. E essa aplicabilidade aparece quando abordamos o inglês de maneira interdisciplinar, abrindo ao aluno a oportunidade de entender o mundo de maneira mais ampla, menos simplista. A língua inglesa se torna, então, instrumento de comunicação global e multidimensional.

Giselle Santos, fundadora da startup Human:ia: “A aplicabilidade da língua aparece quando abordamos o inglês de maneira interdisciplinar, abrindo ao aluno a oportunidade de entender o mundo de maneira mais ampla”. Fonte: Acervo pessoal

Como isso é feito, na prática? 

A interdisciplinaridade tem espaço valioso na aprendizagem por projetos, em que o estudante mobiliza os quatro pilares da educação: aprender a ser, a conviver, a fazer e a conhecer. O projeto deve nascer do interesse dos próprios alunos. Por exemplo, se uma classe demonstra curiosidade com relação ao uso da língua em diferentes situações e cenários, é possível desenvolver um projeto que aborde a prática do inglês nas mídias (internet, TV, jornais) e no convívio social ou profissional. Em cada uma dessas situações podem ser trabalhadas questões importantes, como a difusão de fake news, a diversidade, a construção e o respeito às identidades. Para participar de um projeto, qualquer que ele seja, é natural que a classe precise fazer pesquisas, buscar referências em outras áreas do conhecimento, que vão além da língua, e acabe levantando novas questões a serem respondidas, ampliando o conhecimento.

Você pode dar um exemplo dessas pesquisas que ampliam o conhecimento?

Imagine que um grupo de estudantes queira saber por que as latas de lixo têm cores diferentes. A pesquisa para responder a essa pergunta pode levar a outras questões, mais amplas. Por exemplo, o lixo é separado da mesma maneira em todos os lugares do mundo? Ou por que devemos separar o lixo reciclável do lixo orgânico? Partindo de uma pergunta muito simples, os alunos se veem discutindo um grande tema da área de ciências naturais, a sustentabilidade e os cuidados com o planeta. Em resumo, o segredo para ensinar inglês por interdisciplinaridade e promover uma visão crítica do mundo é escapar dos exercícios pré-fabricados. Se estamos falando de transporte urbano, em vez de estudar um vocabulário pronto, podemos discutir o aumento das passagens de ônibus e metrô, ou o preço dos combustíveis, e lidar com o vocabulário necessário para isso.

Na pedagogia por projetos, o professor é o guia que orienta a aprendizagem. Como ele faz isso para incluir a interdisciplinaridade no ensino do inglês?

Primeiro, o professor deve se ver também ele como um aprendiz aberto a descobertas. Precisa, de um lado, ter consciência e atitude de cidadania global, e, de outro, conhecer seus alunos, saber o que eles estão consumindo, quais suas necessidades e os problemas com que convivem. Com isso, o professor pode complementar os planos de aula e o conteúdo dos materiais didáticos com elementos interdisciplinares que vão além da fórmula pronta. Por exemplo, na clássica aula sobre nacionalidades de povos que falam a língua inglesa, por que não trabalhar com países que eventualmente não apareçam na lista, como a Jamaica? Se podemos falar da Hollywood, dos Estados Unidos, por que não descobrir a Bollywod, da Índia? O mesmo exemplo vale para a área de ciências exatas — por que não trazer para a sala uma pizza ou fazer um bolo seguindo uma receita para falar de frações e medidas em inglês? Repare que essas abordagens abrem espaço para professores de outras áreas do conhecimento, como geografia, artes e matemática.

Os projetos, então, não se limitam a questões do entorno do aluno, certo?

Não apenas. É possível explorar a extensão da língua inglesa como manifestação cultural de outros povos. Um bom exemplo são os projetos desenvolvidos por meio do Design for Change, um movimento em rede, pelo qual professores e alunos de diferentes partes do mundo compartilham propostas para a solução de problemas locais, regionais ou globais. Um desses projetos nasceu de alunas da Índia, que questionavam a participação feminina no universo escolar. Trocar informações com estudantes indianos sobre esse tema é uma boa oportunidade de aprendizagem interdisciplinar, com o inglês associado a uma cultura e uma realidade distantes da sala de aula no Brasil. 

Podemos dizer que a interdisciplinaridade traz o mundo para dentro da sala de aula?

Sim, até porque o mundo não para quando se entra na escola. O aluno traz para a classe toda uma bagagem de conhecimentos adquiridos ao longo da vida — ele sabe ler e escrever, navegar pela internet, jogar videogames, entre outras habilidades. É sobre essa bagagem que a aprendizagem se dá e a ela se soma. Depois, no sentido inverso, o que foi aprendido é aplicado na vida fora da escola e pode levantar outras questões, que novamente serão levadas para a sala de aula. A educação é um processo que se retroalimenta constantemente.

Visto dessa maneira, o ensino de inglês parece se associar a uma filosofia de vida cidadã.

De certa maneira, sim. Vivemos num mundo com desafios multidimensionais, que devem ser enfrentados também de maneira multidimensional. Um exemplo disso são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), metas de combate a problemas socioambientais do planeta, a serem atingidas até 2030. São objetivos que tratam de questões fundamentais da humanidade, como erradicação da pobreza e da fome, garantia à saúde e ao trabalho de qualidade, igualdade social e cuidados com o meio ambiente. Repare que esses temas envolvem diferentes áreas do conhecimento, de ciências humanas e sociais a exatas e naturais. Trabalhar esses objetivos nas aulas de inglês, de maneira interdisciplinar, faz com que os alunos desenvolvam maior consciência de seu papel de cidadãos e devolvam à comunidade ações construtivas. Nisso, o inglês não é fim, mas meio. O aluno precisa estar pronto para levar a língua estrangeira para sua vida lá fora e usá-la em qualquer situação de demanda, em benefício da sociedade. Isto faz parte da ideia de que a educação tem como objetivo a construção do ser humano.