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Língua inglesa e equidade étnico-racial: por que ainda estamos tão distantes?

Prevista na Lei 10.639/2003, a inclusão obrigatória do ensino de História e Cultura afro-brasileira e africana nos currículos de escolas do país vigora há quase 20 anos. O racismo estrutural que se mantém presente nas instituições, ainda que nosso país seja formado por descendentes de indígenas e diversos imigrantes, majoritariamente autodeclarados pretos e pardos, faz necessário a implementação de legislações que obriguem o resgate da ancestralidade brasileira no âmbito escolar. Mas as estratégias e políticas de reforço para aplicação são suficientes?

Essa problemática motivou o Observatório para o Ensino da Língua Inglesa a mapear o ensino da língua adicional no país sob o viés da representatividade negra e feminina. A plataforma é parte do programa Skills For Prosperity, presente em nove países, que visa apoiar o crescimento econômico e a redução da pobreza, proporcionando a jovens e grupos em desvantagem o acesso à educação de qualidade e ao desenvolvimento de competências para o mundo do trabalho. No Brasil, a busca pelo ensino representativo perpassa a análise das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, balizadoras do ensino de cultura afro-brasileira nas escolas, e o estudo interpretativo de dados socioeconômicos escolares.

Vale dizer que o mapeamento desenvolvido pelo Observatório foi feito a partir do Censo Escolar e do Censo da Educação Superior e está disponível na área de dados da plataforma. É uma oportunidade para que os usuários possam conhecer gráficos e estudos sobre como está o inglês nas redes nos níveis municipal, estadual e federal.

Conheça as leis

Desafios no ensino e aprendizagem da língua

“Não temos uma política para aprendizagem de língua inglesa na Educação Básica oferecida pelo setor público e não investimos seriamente no ensino-aprendizagem de línguas adicionais na educação escolar básica”, lamenta Telma Gimenez, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ao lado de Vander Viana, a docente é coautora do estudo “Professores e professoras de Inglês no Brasil – retratos de uma profissão a partir do Censo Escolar e do Censo da Educação Superior”, desenvolvido pelo Observatório.

Ainda segundo Telma, esse investimento passa por considerar que disciplinas essencialmente práticas, como o inglês, exijam condições adequadas, como menos alunos na sala de aula. Além da falta de estrutura, de acordo com levantamentos feitos pelo Observatório, com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a maioria das turmas não conta com professores de inglês formados na área. No Ensino Médio, por exemplo, o percentual de docentes que não têm licenciatura ou bacharelado em língua inglesa pode chegar a 76%, impactando diretamente as oportunidades e a qualidade de aprendizagem oferecidas aos alunos e às alunas.

 

Do outro lado, para que haja engajamento na hora de estudar, é preciso despertar a motivação dos estudantes. A falta dela está geralmente ligada à dificuldade de se imaginar como falante da língua, que leva o aluno a acreditar que a língua é “só mais uma matéria escolar”. Um caminho, de acordo com Telma, está na representatividade. O ensino deve permitir aos aprendizes se verem representados em materiais didáticos e oferecer tarefas que os coloquem como usuários da língua para criar senso de pertencimento a essas comunidades e legitimar a apropriação do inglês como forma de expressão de suas identidades no cotidiano. “Propostas homogeneizantes ou que não reconheçam a diversidade de raça e etnia podem gerar pouco investimento nessa aprendizagem”, alerta a professora. Nos dados fornecidos pelo Observatório para o Ensino da Língua In

glesa sobre raça e etnia dos docentes, quase 40% se autodeclararam brancos e 32,6%, pretos e pardos diferença expressiva comparada à proporção da população brasileira (56%, segundo o IBGE 2019) , apesar da fatia de cerca de 28% de não declarados na pesquisa.

História e Cultura afro-brasileira: transformações necessárias na escola e no mundo do trabalho

Com o mote #TirarALeiDoPapel, a empresa social AfroeducAção tem trabalhado desde 2008 na produção de ações estratégicas para a equidade racial brasileira, incentivando a aplicação da Lei 10.639/2003. “Existem, sim, escolas que fazem projetos o ano inteiro pautando a equidade racial, mas a nível nacional são consideradas exceções. Só há a aplicação da lei garantidamente na semana ou no dia da Consciência Negra, em novembro”, conta Paola Prandini, diretora e co-fundadora da organização. Ela reforça a necessidade de implementação da formação continuada dos professores: “O que temos hoje é uma legislação que nos diz a importância da aplicação da lei, mas não necessariamente sobre como aplicar a lei”, completa.

Enquanto a inclusão no ensino caminha vagarosamente, o mercado reivindica a pauta cada vez mais. Sátira Machado, professora da Universidade Federal do Pampa e especialista em estudos afro-brasileiros, lembra que gigantes tecnológicos já começaram a dialogar com a temática, pressionados pelo movimento global Black Lives Matter. Empresas como Microsoft, Facebook e Amazon prometem investimentos para o fomento à inclusão e aos programas para contratação de pessoas negras em cargos de gerência. No Brasil, empresas como o Itaú financiam projetos para amplificar a produção de conhecimento sobre as culturas afro-brasileira e indígena. “Em 2021, o Brasil está comemorando 50 anos da primeira celebração do dia 20 de novembro, data que é reconhecida pelo país inteiro [sendo feriado em muitas cidades]. É um momento ímpar de resgatarmos as histórias, as culturas e as memórias da cultura afro-brasileira na América Latina”, pontua.

Mas se o mercado evolui e o ensino não, a barreira para estudantes ainda com pouca formação em língua adicional cresce. Mais do que ampliar o acesso a melhores empregos e ascensão financeira e social, o inglês pode ser um convite ao debate coletivo. “Saber inglês potencialmente aumenta as chances de brasileiros se engajarem no diálogo mundial sobre possíveis soluções para problemas que afetam falantes de diferentes línguas, como crises climáticas e a preservação do planeta, mas que compartilham dos efeitos – muitas vezes, devastadores, de decisões que acontecem em palcos onde essa língua é privilegiada”, contextualiza Telma. “Ter mais brasileiros falando inglês dá amplitude às suas vozes, tão necessárias tanto para celebrar nossas virtudes como para nos engajarmos, junto com outros, para discussões e ações que requerem a participação de muitos”, completa ela. Quantos ainda estão vendo de fora?