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Ensino de inglês precisa dialogar com a realidade da educação de jovens e adultos

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) possui características específicas, uma vez que a modalidade de ensino é destinada a oferecer o ensino fundamental e o médio para quem não completou os estudos na faixa etária considerada adequada. ‘Esse aluno vem para a escola com necessidades e com objetivos de aprendizagem bem diferentes daqueles de crianças e adolescentes que estão no ensino regular’, avalia Simone Sarmento, professora associada no Departamento de Línguas Modernas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Para o ensino da língua inglesa não é diferente. ‘Os alunos do EJA têm necessidades prementes, que a vida impõe. Seja escrever melhor ou participar de práticas sociais em inglês. É muito importante essa noção de educação para o aqui e agora nesse contexto’, afirma. Simone destaca que é essencial valorizar o conhecimento prévio desses alunos e trazer para a aula de inglês em EJA as experiências de vida em sociedade, sempre considerando a diversidade da sala. ‘São sempre turmas muito heterogêneas com relação à idade dos alunos e ao tempo e motivo da evasão. Podemos ter, por exemplo, alunos de 16 a 51 anos numa turma de EJA de ensino fundamental. Isso tem que ser considerado na hora de se pensar no projeto pedagógico’, pondera.

Ana Luiza França, professora do IV módulo do NEJA (Nova Educação de Jovens e Adultos) do Colégio Estadual 10 de Maio, em Itaperuna (RJ), ressalta a importância do inglês para esse público. ‘O ensino da língua inglesa é muito importante na EJA, pois vivemos em um mundo globalizado, em que a comunicação se faz necessária seja por e-mails, redes sociais, jogos interativos. Os alunos se deparam com inúmeros vocábulos em inglês e têm uma certa curiosidade e a necessidade de entender essas palavras e expressões’, diz.

Professora de língua inglesa da EJA da rede pública do Distrito Federal, na cidade de Samambaia, Anarcisa de Freitas Nascimento acrescenta que esse conhecimento é relevante, uma vez que o público da EJA é composto, em sua maioria, por pessoas que já estão ou vão se inserir no mercado de trabalho. 

‘Essas pessoas devem ter o conhecimento básico das palavras mais usadas em língua inglesa, para que possam se comunicar minimamente no idioma’, afirma ela, que também é pesquisadora da área de linguagem da Diretoria de Avaliação da Educação Básica do Inep, autarquia vinculada ao Ministério da Educação (MEC). ‘Esse público deve passar pelo processo de letramento em uma língua estrangeira, uma vez que o inglês está presente em todas as áreas, principalmente no setor de tecnologia.’

O ensino de inglês pode ainda contribuir para a construção da cidadania e favorecer a participação social desses alunos jovens e adultos. ‘Eles podem ampliar a compreensão do mundo, refletir sobre ele e intervir na realidade em que vivem’, afirma Simone, da UFRGS. Isso porque, através do inglês, é possível ter acesso a bens culturais construídos na língua em outras partes do mundo ou até mesmo aqui no Brasil. ‘Dessa forma, o aluno pode conhecer outras culturas e reconhecer a sua cultura no mundo, comparando suas experiências de vida com as de outros povos’.

Estratégias diversificadas

Do ponto de vista da abordagem pedagógica, Simone ressalta a importância da perspectiva de ensino de inglês voltada para o uso da língua em contextos comunicativos. Dessa forma, o aluno consegue desenvolver habilidades mais específicas, como compreender um assunto e se expressar, seja oralmente ou por escrito, de preferência de forma que ele tenha oportunidade de interagir com o mundo. Ela exemplifica: ‘Ele pode assistir um vídeo no YouTube e se manifestar sobre o tema abordado, por exemplo, escrevendo uma frase de opinião’. 

Anarcisa conta que muitos alunos chegam com bloqueio em relação à língua inglesa, pois estão pensando somente na parte gramatical, como é comumente visto na escola. ‘Mas, a partir do momento em que você usa outras estratégias de ensino, desde uma leitura instrumental até a abordagem mais comunicativa, eles conseguem ter uma maior compreensão da língua, se sentem mais participantes e entendem que estão imersos em um mundo onde precisam do inglês.’

Uma abordagem que costuma atrair o interesse dos alunos, de acordo com ela, é a inserção de assuntos próximos do mundo do trabalho, como comunicação via Whatsapp, elaboração de currículo, instruções de uso de plataformas e de redes sociais, preenchimento de formulários online e a realização de buscas e pesquisas em língua inglesa.

Segundo Anarcisa, a tecnologia também pode ser uma boa aliada nesse sentido. Ela destaca que, com a pandemia e a transição das aulas presenciais para o ambiente on-line, embora tenha diminuído a quantidade de alunos e ocorrido perda no contato com os estudantes, muitos dos que permaneceram ficaram mais engajados. ‘Como a aula acontece pela plataforma Google Classroom, é possível ter recursos diferenciados e atividades interativas que incluem, por exemplo, o uso de vídeos e exercícios online’, avalia.

Uma outra iniciativa que costuma despertar a atenção dos alunos da EJA é a realização dos chamados projetos integradores, que envolvem várias disciplinas e, a cada semestre, têm uma área temática. ‘Dentro da temática racial, por exemplo, eles exploram se outros países de língua inglesa, além dos Estados Unidos, enfrentam questões raciais. No tema dos direitos sociais, refletem sobre a obrigatoriedade do ensino de inglês no Brasil’, exemplifica Anarcisa. O resultado pode ser um texto, um vídeo, um podcast ou até mesmo uma teatralização. ‘O importante é que eles entendam como é o uso da língua em determinado contexto’.

Na experiência da professora Ana Luiza, entre as situações que motivam os alunos estão a oportunidade de aprender músicas de forma prazerosa, a construção de pequenos textos e a elaboração de frases utilizadas no cotidiano. 

‘Aproveitando isso, trabalhamos com canções com vocabulário e gramática aplicadas à letra, conversação dando ênfase a situações do dia a dia, jogos que estimulam o raciocínio e a memória, textos jornalísticos de sites internacionais, receitas culinárias e redação de mensagens de e-mails.’

Material adequado 

De acordo com Ana Luiza, um dos principais desafios do ensino de inglês para o público da EJA é a elaboração de materiais diversificados para despertar o desejo de aprender inglês. ‘O material didático audiovisual deveria ser apropriado à turma, pois sabemos que há uma diversidade de interesses entre os alunos mais jovens e os adultos.’

A professora Anarcisa também aponta para a necessidade de um material didático que dialogue mais com esse perfil de aluno, além de uma política de bilinguismo, para que os estudantes realmente consigam ter uma comunicação básica.

Ela diz que há muito material sendo produzido para crianças e adolescentes, mas pouca coisa voltada para o público da EJA. ‘Em geral, os conteúdos são muito artificiais, infantilizados ou abordam assuntos distantes do universo dos alunos. Da mesma forma, há centros públicos de ensino de línguas no Distrito Federal, mas não são voltados para jovens e adultos, e sim para alunos do ensino regular.’  

Simone, da UFRGS, também considera que abordagens e materiais tradicionais não funcionam para esse público. Para ela, o uso de textos do dia a dia e músicas tende a ter melhores resultados. ‘Uma saída é trabalhar com textos autênticos, ou seja, que não foram produzidos somente para o uso em sala de aula. É possível começar com materiais com menos textos, como materiais publicitários, por exemplo’.