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Construir para aprender

Surgido em meados dos anos 2000, o movimento maker, que incentiva as pessoas a construírem e repararem, elas mesmas, objetos do dia a dia, rapidamente chegou às escolas na forma de projetos. Além de lidar com fundamentos da ciência, tecnologia, engenharia, arte e matemática, os estudantes têm nesses projetos a oportunidade de exercitar a criatividade e o pensamento crítico na solução de problemas ou desafios. Nesta conversa com o Observatório do Ensino da Língua Inglesa, a artista plástica, professora de inglês, formadora de professores e escritora de materiais educacionais Danielle Hersey, especializada no desenvolvimento de projetos educacionais relacionados à cultura maker, fala sobre como incluir essa prática no ensino de inglês. 

Danielle Hersey, especialista em projetos educacionais e cultura maker, com objetos construídos por estudantes em suas aulas de inglês. Fonte: Acervo pessoal

O que é, exatamente, a cultura maker aplicada à educação?

A cultura maker tem relação direta com o movimento DIY (do it yourself), no qual as pessoas fabricam ou reparam objetos de seu dia a dia. Na educação, a cultura maker não é muito diferente crianças, adolescentes e mesmo adultos constroem objetos e resolvem problemas ou desafios, partindo de seus próprios interesses. A diferença é que, aplicada à educação, a cultura maker envolve o desenvolvimento de habilidades em ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática (STEAM, do inglês Science, Technology, Engineering, Arts, Mathematics), incentivando, ao mesmo tempo, o raciocínio crítico, a criatividade, a capacidade de comunicação e o espírito de colaboração.  

Costumamos associar a cultura maker a tecnologias avançadas, como programas de computador e impressoras 3D, em aulas de robótica. É possível desenvolver projetos além do mundo digital? 

A cultura maker não lida apenas com o mundo digital. Pode se voltar para a construção de objetos de qualquer natureza, com o emprego de diversas ferramentas de diferentes níveis tecnológicos — o que facilita sua implantação por qualquer escola, mesmo as que disponham de menos recursos. Podemos montar um kit maker com peças muito simples, como palitos de sorvete, caixas, pregadores de roupa, pompons, tampas de garrafa PET, rolhas ou pedras, e desafiar os estudantes a criar um objeto. O importante, como eu disse, é que o projeto nasça do interesse e da curiosidade desses jovens, o que faz com que eles se engajem no tema que está sendo estudado.  

E como isso pode ser aplicado às aulas de inglês?

A construção de um objeto se transforma em contexto para estudo de disciplinas diversas. E, em termos de aprendizagem, o processo é mais importante que o produto final. No caso de inglês, a construção serve como base para aprendizagem de diferentes habilidades, como vocabulário ou gramática, leitura e escrita, fala e compreensão da fala (reading, writing, speaking, listening). 

Recentemente uma aluna minha criou uma pulseira que brilha, montada com lâmpadas LED e uma bateria, interligadas em um circuito elétrico. Com isso, ela trabalhou com conceitos de engenharia e física e, ao mesmo tempo, com o design do objeto, que envolve estética, uma característica da arte. Além disso, a aluna estava trabalhando em inglês com cores e sensações, temas que entraram no projeto. 

Dou outro exemplo com alunos meus: uma turma de adolescentes de um nível intermediário de inglês que estudava um texto sobre design trabalhou com um kit de peças soltas que incluíam copos de plástico, palitos e blocos. Primeiro, eles analisaram os materiais, descrevendo em inglês suas características físicas, aplicando a gramática e o vocabulário estudados. Depois, foram desafiados a usar as peças para criar um espaço amigável, como uma sala de aula ou sala de espera. Ao longo de todo o processo, os alunos foram incentivados a empregar expressões como let’s try this (vamos tentar isto) ou maybe we can use that (talvez possamos usar aquilo). Já crianças menores poderiam construir, com os mesmos materiais, torres, e trabalhar questões relacionadas à estabilidade e ao tamanho, e, no inglês, com comparativos e superlativos, como bigger e the biggest, taller e the tallest. Em qualquer um dos casos, a construção dos objetos torna o aprendizado da língua mais significativo. 

A cultura maker não se fecha nas práticas em sala de aula, certo?

Sim, crianças e adolescentes podem propor soluções para problemas sociais ou culturais que afetam alunos de outras classes. Os projetos podem envolver, ainda, questões que extrapolem os muros da própria escola. E o que eles aprendem na escola pode ser levado para fora, replicado e aperfeiçoado. O importante é que os alunos sejam os protagonistas desse processo, que pode, ainda, incluir o contato com alunos de outras escolas e, até, de outras partes do mundo. No caso do inglês, por exemplo, é interessante que os alunos discutam seus projetos com estudantes de outros países. Isso amplia os horizontes do aprendizado. 

Qual o papel do professor e da escola na implantação de uma cultura maker associada ao ensino de inglês?

Existem diversos cursos de cultura maker voltados a professores, mas não são necessários para começar. No geral, basta ao docente orientar as atividades fazendo perguntas norteadoras do projeto e conectando-as à língua inglesa. É uma questão de postura. O professor não deve atuar como um simples transmissor de conhecimento, mas como um guia. Ele pode, inclusive, aprender com os próprios alunos, ao longo do processo. Da escola, como já dissemos, a cultura maker não exige tecnologias sofisticadas, o que permite que as atividades sejam desenvolvidas, por exemplo, em escolas públicas, no geral, com menos recursos. A cultura maker não é desenvolvida em clubes exclusivos. Ao contrário, deve ser acessível a todos. Afinal, de uma forma ou de outra, somos todos makers. 

 

Os quatro Cs da cultura maker nas escolas

O professor é personagem fundamental para criar um ambiente favorável à aprendizagem pela cultura maker. Mitchel Resnick, do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT Media Lab), Estados Unidos, um dos maiores especialistas na área, resumiu em seu livro Jardim da Infância para a vida toda (Lifelong kindergarten) a postura que se espera do docente a quatro conceitos, os chamados quatro Cs.

  • Catalisador — despertar a curiosidade dos alunos e apontar caminhos possíveis a partir dos interesses da classe;
  • Conector — promover a interação entre estudantes de um grupo, de modo a que as habilidades de uns se somem às habilidades de outros;
  • Colaborador — interagir com todos os alunos, incentivando a colaboração entre grupos;
  • Consultor — atuar como um guia no processo de construção do objeto, dando aos alunos suporte emocional e motivacional.