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Aprendizagem limitada e prejuízos na oralidade são alguns dos impactos da pandemia no ensino de inglês

Assim como em outros setores, a pandemia tem causado profundos impactos na educação. Com a suspensão das aulas presenciais, as escolas foram obrigadas a adotar o formato remoto, o que exigiu readaptar práticas e métodos pedagógicos. Mas para que esse tipo de ensino se viabilize, é preciso que professores e alunos tenham acesso à internet, conexão de boa qualidade e equipamentos e dispositivos adequados. Nesse contexto, as diferenças afloraram, sobretudo entre as redes pública e particular, evidenciando as desigualdades no sistema educacional do país. 

No caso do ensino de línguas, que depende essencialmente da comunicação e da interatividade entre professor e estudante, uma das dificuldades foi manter o contato com os alunos, já que muitos, sobretudo os que estudam em escolas públicas, não contam com esses recursos. E mesmo entre aqueles que conseguiram acompanhar aulas ao vivo, por exemplo, houve prejuízo em relação à prática oral. Essa oralidade, que de certa forma já acontece com alguma dificuldade nas aulas presenciais, se tornou ainda mais desafiadora no ambiente digital.

Lucilelia Lemes de Castro Silva Nascimento, professora de língua inglesa e assessora pedagógica do Projeto de Mediação Tecnológica Goiás Tec, da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, conta que as ferramentas digitais adotadas para dar seguimento ao aprendizado comprometeram de certa forma a comunicação do professor com o aluno.

‘A partir da matriz curricular, usamos músicas, filmes e mensagens de e-mails para estimular o interesse pela língua, e trabalhamos em cima disso. Mas ficou uma lacuna na parte da comunicação. Mesmo nos momentos de interação, usando ferramentas como Teams e Zoom, nós não conseguimos manter essa interatividade em língua inglesa’. 

Segundo ela, foi então retomada a conversação em língua portuguesa sobre as atividades realizadas. ‘Deixamos de nos comunicar em inglês até porque eles não se sentiam muito à vontade para conversar e falar. Presencialmente já existe uma timidez, mas a inibição ficou ainda maior na modalidade remota’.

Lucilelia diz que muitos alunos deixaram de assistir às aulas remotamente devido à falta de recursos. ‘Alguns tinham smartphone, mas não acesso à internet. E como boa parte não possui laptop, é complicado fazer as atividades só na plataforma, porque eles não conseguem imprimir e não têm condições de ir a uma lan house para baixar as atividades, responder e postar na plataforma’.

Frente a essa situação, foram feitas pesquisas com as famílias para identificar os principais problemas, e a maioria de fato relatou a falta material, internet e computador. As escolas do estado começaram, então, a oferecer material impresso aos alunos e disponibilizar espaços e horários para acesso à internet.

‘Continuamos postando atividades no Google Classroom, fazendo vídeos e encontros no Teams, conversando via Whatsapp e trocando contatos para atender as dúvidas, mas as famílias dos alunos que não têm condições de usar os recursos digitais têm ido até a escola para pegar o material impresso ou baixar vídeos para os alunos assistirem. Isso fez com que muitos estudantes que tinham trancado a matrícula retornassem’. De acordo com ela, estudantes que vivem na zona rural e de comunidades quilombolas e indígenas têm recebido o material impresso e feito a devolutiva das tarefas nos próprios locais onde moram, sem precisar se deslocarem para a cidade.

A professora também aponta que outra ferramenta importante foram as aulas gravadas e transmitidas ao vivo por TV aberta, para todo o estado, e também disponibilizadas no YouTube.

Alternativas semelhantes foram adotadas por outros estados (veja mais abaixo, em Ações nos Estados). No Rio de Janeiro, por exemplo, os recursos colocados à disposição dos estudantes que não tinham acesso à internet foram as videoaulas, por meio do programa Seeduc no Ar (pelo YouTube e TV aberta), apostilas com materiais impressos e livro didático. 

O impacto negativo da pandemia no desenvolvimento da competência oral dos alunos também foi identificado por Marilda Macedo Souto Franco, supervisora pedagógica e professora de inglês do Centro Interescolar de Línguas (CIL) de Ceilândia, no Distrito Federal. Os CILs, ligados à Secretaria de Estado de Educação, atendem prioritariamente alunos da rede pública do DF.

‘Durante a pandemia, usamos ferramentas, como o Google Meet, que oferecem a possibilidade de desenvolver a comunicação oral dos alunos, mas a porcentagem dos que participam é pequena por vários fatores, como falta de acesso à internet e a dispositivos’, diz Marilda.

Ela também considera que o ensino remoto não é uma forma adequada de ensino para crianças e adolescentes que ainda precisam aprender a se organizar para participar até mesmo das aulas presenciais. Outra dificuldade que ela aponta é que muitos estudantes não têm nem lugar apropriado para estudar.

Para minimizar a evasão, houve um projeto de busca ativa. Os alunos receberam cartas e telefonemas com instruções de como entrar na plataforma, e os que não têm acesso à internet recebem atividades impressas para continuar em contato com a língua.

Para ela, o maior desafio tem sido manter os alunos motivados diante de tantas questões particulares que estão enfrentado durante a pandemia. ‘A quantidade de trabalho dos professores e professoras dobrou porque precisam ficar sempre em contato com o aluno pelo WhatsApp e pela plataforma para que eles não desistam’.

Em meio a tantos desafios, a supervisora pedagógica também vê aprendizados e aspectos positivos. Um deles é o aluno assumir responsabilidades por sua aprendizagem. ‘Percebemos que eles ainda não conseguem fazer isso porque as habilidades para desenvolver autonomia e disciplina no contato com a língua não foram devidamente trabalhadas. Para ser um bom aprendiz de línguas é necessário se colocar nessa posição. Temos refletido sobre essa questão, que abre portas para uma mudança na nossa abordagem de ensino’.

Outro ponto positivo, segundo ela, foi a melhoria dos materiais da escola e das atividades que podem ajudar no aprendizado dos alunos, mesmo estando longe do professor. ‘Os enunciados e as propostas de atividades foram melhorados. Para os alunos que acessam a plataforma, as atividades requerem a gravação de áudio. Assim, eles podem praticar a oralidade’.

Confira algumas iniciativas das secretarias estaduais de educação e estudos sobre o tema:

Ações nos Estados