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Abordagem decolonial traz olhar crítico para o ensino da língua inglesa

O conceito de decolonialidade, que surge com pensadores latino-americanos na primeira década do século XXI, critica a hegemonia da visão de mundo e das narrativas eurocêntricas e propõe dar espaço e voz aos povos que foram colonizados, valorizando as suas manifestações e saberes.

No ensino de inglês, o uso dessa perspectiva possibilita o contato com essas produções, que durante muito tempo foram desconsideradas. Permite, ainda, um olhar crítico para o ensino da língua inglesa — questionando o porquê de se aprender um idioma estrangeiro — e o debate de questões globais que alcançam relevância local, a exemplo das discussões que envolvem o racismo estrutural.

Professora de língua inglesa do Instituto Federal Fluminense (IFF), campus de Macaé (RJ), onde atua desde 2014 com turmas de ensino médio integrado ao técnico, ensino técnico subsequente ao ensino médio e Proeja (educação de jovens e adultos), Camila França Barros trabalha com esse olhar. Nesta entrevista, ela fala sobre a importância de trazer a decolonialidade para a sala de aula, como esse conceito se relaciona com o ensino da língua inglesa, como é o trabalho com essa perspectiva e as vantagens para o aluno. 

Camila França Barros é formada em Letras (bacharelado e licenciatura em português/inglês) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Inglesa pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Atua como professora de inglês desde 2006 e já lecionou em cursos livres e no ensino fundamental da rede pública municipal do Rio de Janeiro (RJ) e de Macaé (RJ). Desde 2014, é professora de língua inglesa no Instituto Federal Fluminense (IFF), campus de Macaé, onde dá aula para turmas de ensino médio integrado ao técnico, ensino técnico subsequente ao ensino médio e Proeja (educação de jovens e adultos). Também integra o corpo docente da graduação de licenciatura em História.

Como surgiu a perspectiva decolonial na sua prática docente?

Ao entrar no IFF,  eu tive contato com outros professores que já estudavam essa temática. Além disso, eu passei a trabalhar em regime de dedicação exclusiva, saindo da rotina de ter três ou quatro empregos ao mesmo tempo, em que precisava fazer o que era mais prático e rápido, como usar o material didático para preparar a aula. Com isso, eu tive mais tempo e liberdade não só para montar o meu material e conduzir as aulas da maneira como eu achasse melhor, mas também para desenvolver projetos de pesquisa e de extensão com os meus alunos e trocar mais com os outros docentes. E, de 2017 a 2019, fui coordenadora de um projeto de extensão, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiro e Indígenas (Neabi). O conjunto desses fatores foi fundamental para eu incorporar a abordagem decolonial na minha didática. 

Como a sua atuação especificamente no Núcleo de Estudos Afro-brasileiro influenciou nas aulas de língua inglesa?

No Neabi, eu tinha dois alunos bolsistas de ensino médio, desenvolvia pesquisas com eles e realizava encontros semanais para leitura de textos relacionados a essa temática. Como era um projeto de extensão e eu tinha que devolver isso de alguma forma para a sociedade, desenvolvi várias iniciativas, como a realização de rodas de conversa e uma mostra fotográfica para a comunidade. Também participamos de feiras fora da escola para apresentar o nosso trabalho e visitamos escolas da prefeitura para falar sobre racismo estrutural, estereótipos e preconceitos. Apesar de não ser um projeto ligado à língua inglesa, é impossível desligar isso da minha prática na sala de aula e do material que preparo, que passam a ter esse olhar decolonial.

Como é o seu trabalho em sala de aula? Poderia dar alguns exemplos?

Eu sempre gostei de trabalhar com produções textuais e audiovisuais, como poemas, artigos, vídeos, filmes e músicas em inglês. Mas, se antes eu usava produções cinematográficas de Hollywood, no máximo produções britânicas, depois passei a questionar isso e a querer falar sobre outras cinematografias. Olhar, por exemplo, para o que está sendo feito em língua inglesa na África ou na Índia. E também ver o papel que o cinema hollywoodiano teve no reforço de estereótipos e discutir questões como a participação de pessoas negras, indígenas ou povos originários nesses filmes e a forma como são representados. O olhar muda muito tanto na seleção do material como na abordagem.

O que você prioriza na seleção do material? 

Diversifico os gêneros textuais e temáticas para levar os alunos a refletirem criticamente sobre a sociedade, sobre como chegamos até aqui. Nesse sentido, trabalho de maneira interdisciplinar porque estou pegando um conteúdo da história — por exemplo, direitos civis americanos — e trabalhando com material de língua inglesa, como os poemas do autor Langston Hughes ou o documentário The Rosa Parks Story. Eu quero que meus alunos aprendam mais do que o vocabulário e a estrutura gramatical da língua inglesa. Eu quero que saibam um pouco sobre a história desse país cuja língua eles estão querendo falar.

Como o olhar decolonial pode influenciar o ensino da língua inglesa?

O aluno deve compreender porque ele precisa aprender inglês, para quê serve a língua. E o professor não deve ensinar inglês só para os estudantes que vão viajar para fora.Temos que ter esse olhar crítico para o ensino da língua inglesa, não a romantização. O foco não deve estar apenas no inglês americano ou britânico, mas em trazer para a sala de aula outras produções que por um tempo ficaram de lado. É preciso dar voz e espaço para elas. 

Eu trabalho muito com TED talks. Proponho produções originais em inglês para os alunos escutarem, mas não faladas necessariamente por americanos ou britânicos. Já levei, por exemplo, TED talks da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, como “The danger of a single history” [https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg&feature=emb_title].

O decolonial também é nesse sentido de que o inglês não é americano nem britânico — ele pertence a todo mundo. Eu não quero que o meu aluno se preocupe se o inglês dele é perfeito porque ele está falando com sotaque próximo do inglês americano ou britânico. A gente precisa desconstruir essa ideia. Não existe inglês perfeito. A gente usa o inglês para se comunicar. Se você está se comunicando, ele está perfeito. 

Que outras vantagens essa abordagem traz para o aluno?

No Brasil, existe o mito de que não se aprende inglês na escola, principalmente se ela for pública. O aluno acredita que ele só vai aprender inglês se fizer um curso particular, um intercâmbio ou morar fora. Então, o estudante que tem acesso a um curso de inglês não dá muito valor para o inglês da escola. O aluno mais pobre que não tem esse acesso, e que acha que nunca vai poder viajar, também não entende para quê ele precisa daquela aula e não acredita que pode aprender algo.

Nesse contexto, uma vantagem de adotar essa perspectiva decolonial é justamente mostrar para o aluno que a aula não é apenas sobre aprender inglês. Ao produzir o próprio material, é possível levar para a sala de aula um debate que sai do global e vai para o local, ou seja, que afeta a realidade do aluno e tem potencial de engajá-lo.

Poderia dar um exemplo?

Se estou falando de direitos civis, nos anos 1950 e 1960 nos Estados Unidos, o estudante pode achar que isso não tem nada a ver com ele. Mas, se olharmos para o Brasil de 2020, a gente vê coisas acontecendo aqui que tem tudo a ver com o que ocorria lá, mesmo que aqui a gente não tenha tido segregação e tenha teoricamente todos os direitos assegurados. Desse modo, o aluno se vê representado, entende a importância de discutir isso e compreende qual o lugar dele nesse debate. Ele vai olhar para esse conteúdo com outro interesse, que vai além da língua. Isso atrai muito mais, e eu enxergo isso como uma grande vantagem. Mesmo o aluno fluente, ele pode ter feito sete anos de inglês e nunca ter discutido direitos humanos no curso. Mas, trabalhando assim, ele também vai aumentar o seu vocabulário e repertório. 

Professora Camila com os estudantes Alice Marques e Vitor Manoel Fortunato

Você é a idealizadora de um projeto de curtas-metragens, que já se tornou tradição entre os alunos do 2o ano do ensino médio do IFF Macaé. Como é esse projeto e como a decolonialidade está presente nele?

O projeto de curtas não está diretamente ligado a esse tema, mas esse olhar está no nosso trabalho de modo geral, pois temos essa perspectiva sempre. 

O projeto surgiu em 2016 como um trabalho bimestral. Na época, eu tinha três turmas do 2o ano do ensino médio e pedi para os alunos produzirem um filme curto, com duração de 5 a 10 minutos, em inglês, com legendas em português. O tema era livre, e cada turma fez um filme.

Para engajar os alunos, eu disse que professores de outras disciplinas também assistiriam às produções para elegermos o melhor filme, roteiro e ator. Essa competição entre as turmas fez com que eles se empenhassem bastante. E, no dia da exibição, o auditório lotou. A escola inteira foi assistir. Ao envolver outros professores na votação, eles acabaram se interessando pelo projeto e também quiseram participar.

Como  foi a integração dos docentes de outras disciplinas nesse projeto de inglês?

Em 2017, participaram todos os professores de inglês dos 2os anos do ensino médio, além dos docentes de português e de literatura. A atividade deixou então de ser um trabalho bimestral e passou a ser um projeto da equipe de linguagem. Em vez de três, tivemos sete filmes, um de cada turma do 2o ano.

Para dialogar com a literatura brasileira, a produção dos curtas passou também a ter temas. Nesse ano de 2017, o tema foi a desconstrução da ideia de amor romântico a partir da leitura de clássicos do romantismo. Nos anos seguintes, o projeto cresceu ainda mais, com a participação de professores de geografia e sociologia. Também criamos uma banca avaliadora interdisciplinar. Em 2018, eles tiveram que fazer um conto autoral baseado nas características do realismo de Machado Assis e transformá-lo em um curta-metragem em inglês. Já em 2019, o tema foi direitos humanos, e tivemos filmes sobre população LGBT, refugiados e migração, violência obstétrica e assédio sexual no ambiente de trabalho, entre outros. 

E como foi a produção dos curtas durante a pandemia?

Em 2020, após a suspensão das aulas presenciais, elas só foram retomadas em outubro, por meio do ensino remoto. Por enquanto, estou trabalhando com podcasts. Pedi para os alunos produzirem um roteiro. A cada semana, eles entregam uma etapa do trabalho e, no final, vão gravar o episódio em inglês. Mais para o meio ou final de 2021, uma possibilidade é eles trabalharem com animação, para não terem que se encontrar pessoalmente. Vamos ver como as coisas vão caminhar até lá.