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A relação entre escola e alunos na pandemia de covid-19

O isolamento social adotado para o enfrentamento da covid-19 colocou a educação brasileira numa situação inédita, com a substituição das aulas presenciais por atividades remotas. Desde a fase inicial da pandemia, em março de 2020, os 48 milhões de estudantes da Educação Básica trocaram os bancos escolares pelo estudo em casa, e 2,2 milhões de professores se viram, de uma hora para outra, forçados a lecionar por meio virtual. Os efeitos finais dessa medida só serão sentidos daqui a alguns anos. Mas pesquisas realizadas ao longo da pandemia são unânimes: as lacunas tecnológicas das escolas e dos estudantes e a falta de preparo e formação dos professores para lidar com ferramentas digitais comprometem o aprendizado, o que trará desdobramentos preocupantes para o país, como o aumento da desigualdade educacional, econômica e social. 

Tecnologia digital no Ensino Básico

A educação a distância (EAD) tem avançado no Brasil, particularmente para estudantes universitários. Na Educação Básica, as interações de forma on-line se limitava, antes da pandemia, a atividades complementares das aulas presenciais e comunicação professor-aluno e família, principalmente na rede privada. Esse quadro mudou com o isolamento social implantado no início de 2020, impondo novos desafios a gestores, professores e estudantes – como manter a qualidade do aprendizado quando os alunos contam com uma infraestrutura precária de tecnologia da informação e comunicação adequada a aulas remotas?

As dificuldades de acesso a ferramentas e equipamentos digitais na educação é há muito reconhecida, e acompanha as carências tecnológicas de toda a população no país. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua que investigou o acesso à tecnologia de informação e comunicação em 2019 (Pnad Contínua TIC 2019), mostra que a exclusão digital na população em geral está diretamente relacionada com o nível socioeconômico das famílias, e é maior nas classes menos favorecidas (veja box abaixo). 

Acesso à internet (Pnad Contínua TIC 2019)

  • Apenas 40% dos domicílios do país contam com computador e 11%, com tablet. O rendimento nos domicílios que têm pelo menos um desses equipamentos corresponde a quase três vezes a renda dos que não possuem nenhum deles;
  • Mais de 12 milhões de domicílios do país não têm acesso à internet, parte deles devido ao custo de equipamentos e serviços. A renda média per capita dos domicílios com conexão é de 1,5 salário mínimo, o dobro da renda dos que não acessam a rede;
  • Sobre o equipamento para acesso à internet: o celular é utilizado em praticamente todos os domicílios; o computador por apenas 45%; o tablet, por 12%. A renda média dos que possuem computador e tablet é uma vez e meia maior que a renda para celular.
  • No total, 4,3 milhões de estudantes não têm acesso à internet, seja por falta de dinheiro para contratar o serviço ou comprar um aparelho, seja por indisponibilidade do serviço nas regiões em que vivem.

As desigualdades de acesso e uso das tecnologias digitais na educação se tornaram mais evidentes no período da pandemia, de acordo com o Painel TIC COVID-19, pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br) entre junho e setembro de 2020 com usuários de internet de 16 anos ou mais. Em período anterior, a realização de atividades ou pesquisas escolares pela internet já era reportada por mais da metade dos estudantes das classes AB e se manteve estável no período da pandemia. Entre os indivíduos da classe C, houve um aumento no uso da internet para fins educacionais, passando de 41% para 51%. Para as classes DE, essa taxa foi de 34% para 50% — o que evidencia a disseminação das atividades educacionais mediadas por recursos digitais entre camadas da população com menor acesso a essas oportunidades. 

O notebook foi o dispositivo utilizado com maior frequência (45%) para o acompanhamento de aulas ou atividades remotas entre estudantes das classes AB. O cenário muda para os grupos em desvantagem, em que o telefone celular foi o dispositivo mais utilizado por jovens das classes C (43%) e DE (54%) para a realização de atividades educacionais.

Os dados são confirmados por pesquisa realizada pelo Instituto Península, que avaliou a percepção de sete mil docentes das redes pública e privada da Educação Básica sobre sua atuação entre março e novembro de 2020. O levantamento mostra que 79% dos professores veem como o principal problema para interagir com a classe a falta de infraestrutura e conectividade adequada dos alunos em casa. Em 2020, mais de 80% dos docentes mantiveram o contato com os alunos restrito ao celular, por meio de aplicativos como o Whatsapp, o que limita as possibilidades de ensino remoto. 

A situação não é melhor nas redes públicas, que reúnem alunos em situação socioeconômica mais vulnerável – 83% das famílias desses alunos têm renda média mensal de, no máximo, um salário mínimo. Quase 80% deles poderiam acessar conteúdos online, mas dois terços não têm computador, e metade depende do celular, o que prejudica o aprendizado. No final de 2020, quase metade das redes municipais registrava ter tido muita dificuldade para o acesso dos estudantes à internet. Os dados são da União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (Undime), que realizou duas pesquisas para detalhar os desafios enfrentados pelas redes municipais de educação, uma em maio de 2020 e outra em fevereiro de 2021. A amostra dos levantamentos incluiu quase quatro mil redes municipais, responsáveis pela educação de cerca de 14,5 milhões de alunos. 

María Del Carmen Chude, especialista em Ciências da Educação, comenta: “o celular tem boa funcionalidade para o professor se comunicar com o aluno e com a família do aluno. Mas não é adequado, por exemplo, para os estudantes lerem e produzirem textos”. Chude é diretora pedagógica da Letra e Ponto Projetos Educacionais e do Programa Ciência Hoje de Apoio à Educação, do Instituto Ciência Hoje. 

Despreparo de professores e redes de ensino

As redes têm outro desafio: o acesso à tecnologia digital e a adequação das aulas ao mundo virtual. Segundo a pesquisa da Undime, em maio do ano passado, um quarto dos municípios carecia de apoio para acesso a ferramentas e plataformas no início do período de isolamento, e uma a cada quatro redes tiveram dificuldade em promover o acesso de professores à internet. 

As escolas que contam com recursos tecnológicos, por sua vez, sofrem com a falta de familiaridade dos docentes com as ferramentas digitais e pouca experiência na pedagogia exigida para um bom aprendizado online. Abordando as redes pública e privada, o Instituto Península levantou que 88% dos professores nunca haviam dado aulas virtuais antes da pandemia, e 83% se sentiam despreparados para isso. Em meados de 2020, 75% dos docentes reclamavam da falta de treinamento para ensino a distância e 64% sentiam necessidade de apoio pedagógico para auxiliar as crianças nos estudos em casa. 

Apesar de todos os obstáculos, o ano de 2020 terminou com grande parte dos professores dedicada às aulas a distância – um indicativo do esforço das redes e das escolas para se adaptar à nova modalidade de ensino. O Instituto Península apurou que, depois de dez meses de fechamento das escolas, 72% dos professores das redes pública e privada do Ensino Básico seguiam dando aulas apenas em formato remoto. A pesquisa da Undime de fevereiro de 2021 mostra que 70% das escolas das redes municipais cumpriram o ano letivo até dezembro do ano anterior, mais de 90% delas com aulas remotas. No entanto, a maioria concentrou a interação professor-aluno em orientações pelo Whatsapp e o uso de material impresso. Apenas 21% adotaram videoaulas online ao vivo, que permitem maior interação entre professor e alunos. 

Desigualdades

Diante da precária infraestrutura tecnológica e a falta de orientações pedagógicas, o formato de aulas virtuais tem comprometido o aproveitamento das aulas pelos alunos. O levantamento do Instituto Península apurou que, ao final de 2020, 72% dos professores das redes pública e privada consideravam que o aprendizado em 2020 pelo ensino remoto ficou abaixo ou muito abaixo do esperado. 

O rendimento escolar dos estudantes depende, também, das condições socioeconômicas das famílias. Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, da Organização das Nações Unidas (Unicef-ONU), avaliou em duas rodadas, em julho e novembro de 2020, a vulnerabilidade das crianças brasileiras no cenário de isolamento imposto pela pandemia. E constatou que, ao final de 2020, 69% dos estudantes com renda familiar de até um salário mínimo haviam recebido atividades pela internet, enquanto na população com renda de dois a cinco salários mínimos, a taxa foi de 89%. Para aqueles com renda familiar acima de cinco salários mínimos, a proporção subiu para 92%. 

De acordo com o Instituto Península, 91% dos professores acreditavam, no final de 2020, que os alunos mais pobres ficarão para trás, pela dificuldade de acompanhar as aulas de casa, principalmente pela falta de conectividade e aparelhos. Essa defasagem tem relação também com a rotina das famílias. “É comum que famílias de classes socioeconômicas mais baixas contem com um único celular ou computador”, comenta Chude. “Se o pai leva o celular para o trabalho, como a criança poderá acompanhar as aulas? O mesmo vale para famílias que possuem um único computador. Em famílias com mais de um filho, não há como disponibilizar o equipamento para que todos assistam a aulas ao vivo, que aconteçam no mesmo horário.”

Uma das preocupações é com o aumento na distorção idade-série, fator que contribui para o abandono escolar. Segundo o Censo Escolar de 2019, a taxa de distorção nas redes públicas é superior à da rede privada. Para a primeira série do Ensino Médio, por exemplo, 33% dos alunos das escolas públicas têm idade acima do esperado para a série; na privada, essa taxa é de 8%. 

Desafios para o futuro

Os estudos indicam que as aulas remotas entrarão na rotina escolar depois do período de isolamento social. No levantamento do Instituto Península, 44% dos professores afirmaram enxergar o futuro da educação como um modelo híbrido de ensino, com aulas presenciais e online. Além disso, 94% deles consideram que a tecnologia é hoje muito importante ou fundamental para a aprendizagem. Antes da pandemia, apenas 57% tinham essa percepção.

Isso significa que, para garantir um aprendizado de qualidade pós-pandemia, a Educação Básica brasileira tem vários desafios a vencer na volta à normalidade escolar. Chude aponta alguns desses desafios: a definição de políticas públicas para equipar escolas e alunos, a preparação dos professores para lidar com a tecnologia e a pedagogia virtual e o redesenho dos modelos de aprendizagem nas modalidades remota, presencial e híbrida. Outro desafio consiste na recuperação da aprendizagem com o planejamento do currículo e a definição de novos modos de monitorar a evolução de cada aluno. 

“É fundamental, também, definir metas claras que garantam a equidade, promovendo o acesso de todos os estudantes de todas as famílias às atividades remotas. O empenho em implantar essas mudanças é fundamental para inserir o país dentre aqueles que já têm uma educação voltada para a realidade do século XXI”, conclui a psicopedagoga. 

E você, professora, professor ou gestor educacional: qual a sua percepção sobre tudo isso?