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A parceria entre a sala de aula e a academia no ensino da língua inglesa

Segundo especialistas em ensino de inglês, um dos obstáculos ao avanço no ensino e na aprendizagem de língua é a distância entre aquilo que é produzido no âmbito acadêmico e as práticas da sala de aula. Como se poderia aproximar esses dois universos? Como a academia pode alimentar a prática e vice-versa? Um dos caminhos possíveis para essa aproximação se dá quando a academia atua como um recurso para a formação continuada dos professores, que, quando levam questões práticas para o universo da pesquisa, também contribuem para a condução das investigações.

Professora e diretora do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora CNPq, Janaína Cardoso percebe uma tendência de os professores buscarem a pesquisa, na forma de um mestrado ou doutorado, para entender melhor a sua prática. Na visão da especialista, a pesquisa acadêmica funciona como um processo de formação continuada para esses profissionais, que muitas vezes comentam sentir falta de certos aspectos em sua formação. 

Geralmente, os professores chegam com uma dúvida pontual, como por exemplo uma dificuldade de aprendizagem observada em seus alunos, ou em busca de um entendimento sobre como devem proceder para corrigir a a produção oral de seus estudantes. Sendo assim, por vezes eles trazem problemas extremamente práticos, quando se candidatam ao mestrado acadêmico em Letras. Na visão de Janaína, a pesquisa acadêmica faz todo o sentido para que um profissional siga em sua trajetória na escola, levando para o seu dia a dia os conhecimentos adquiridos. “Ele pode trabalhar o acadêmico, mas pensando a sala de aula”, destaca.

Ampliando o olhar

Uma vez inseridos no universo da pesquisa acadêmica, esses professores ampliam a sua perspectiva e começam a perceber outros aspectos envolvidos em seus questionamentos. Percebem que não precisa haver somente uma resposta específica para cada um deles, como Janaína pontua. No universo acadêmico, o professor de línguas começa também a conhecer outras áreas dentro de sua grande área de atuação –  e tem a oportunidade de conversar com vários pesquisadores envolvidos com diferentes temáticas e campos. “É uma rede que vai se criando e que vai fortalecendo”, conta Janaína, complementando que isso se torna ainda mais viável na Linguística Aplicada, por não ser uma área fechada em si mesma, na opinião dela. 

Na medida em que percebem que há outras pessoas com questionamentos parecidos com os seus, os professores podem se sentir menos isolados e menos inseguros em sua prática docente, sendo esses também efeitos interessantes da aproximação entre a pesquisa e a prática. Outro desdobramento positivo da busca pela pesquisa acadêmica, apontado pela especialista, é a multiplicação do conhecimento, também com reflexos na maneira como o próprio professor se percebe. Ele passa a ir a congressos, a fazer apresentações em seu local de trabalho – que pode ser uma Secretaria. “O pensar, a reflexão muda”, explica Janaína. Como ela ressalta, todo professor é já um pesquisador, por ter o costume de pensar sobre sua prática de alguma maneira. A diferença é quando o professor pensa para além disso, quando avalia o que está acontecendo e os fatores que influenciaram naquele processo. “É outro patamar de reflexão, de querer entender a sua prática”, complementa.

Quando se trata de conciliar o cotidiano escolar com os compromissos da vida acadêmica, porém, não basta a disposição do professor: ele depende da compreensão e do incentivo da direção da escola onde trabalha, que precisa liberá-lo para assistir às aulas, por exemplo. As escolas devem, então, ter em mente os efeitos positivos dessa formação ampliada, para colaborar para que essa conciliação ocorra. “Ao fazer o curso, ele vai se tornar um profissional melhor”, indica Janaína Cardoso.

Prática Exploratória: o professor e sua reflexão

A formação continuada, em formato de um mestrado ou doutorado acadêmico, é uma das opções para aproximar a pesquisa da sala de aula. Já a prática exploratória é uma abordagem de ensino e de pesquisa que integra a curiosidade entre o aprender e o ensinar, tomando a qualidade de vida como eixo central. 

No artigo “Professor: Um Profissional em construção permanente” (veja na sugestão de leitura ao final do texto), as pesquisadoras Inés Kayon de Miller e Isabel Cristina Bezerra se referem à Prática Exploratória como “uma forma de ensinar e aprender que encoraja os participantes de sala de aula a olhá-la como uma fonte inesgotável de puzzles ou questões a serem investigadas”. Elas afirmam, ainda, que entendem a formação docente como um processo permanente, o qual, no caso do ensino de línguas, demanda – para além da construção de conhecimentos teóricos sobre linguagem, aprendizagem e metodologia específica – uma atitude reflexiva, construída a partir de um olhar investigativo para a sala de aula.   

Miller reforça que é quando o próprio praticante busca entender o que ele está fazendo que ocorre a maior possibilidade de compreensão da sua prática. “Não adianta outra pessoa me pesquisar”, ela diz; “A pesquisa é como se fosse uma autopesquisa, para você entender cada vez melhor o que você faz”. Entender-se significa entender o que acontece em aula, compreender o que acontece quando o aluno está aprendendo; e isso, como ela indica, requer o envolvimento do professor, que deve estar atento à sua prática e ao que acontece quando está com seus alunos. Outro ponto importante indicado pela Prática Exploratória é o da sustentabilidade na relação entre pesquisa e sala de aula. Não se trata de fazer pesquisa uma única vez, de maneira pontual, mas de aproximar de maneira definitiva os universos da academia e do cotidiano do professor.