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A diversidade de gênero no ensino de inglês

O crescimento de movimentos sociais em defesa da liberdade sexual torna mais explícita a discriminação de pessoas que pertencem ao grupo LGBTQIAP+. Tratar de temas relativos à diversidade sexual e de gênero no ensino da língua inglesa é uma forma de promover um olhar de respeito aos direitos humanos. Conversamos com a professora de inglês Akemi Iwasa, consultora da Troika, empresa que desenvolve materiais e projetos educacionais para alunos e professores. Pós-graduada em neurociências e atualmente cursando especialização em direitos humanos e responsabilidade social, Iwasa fala da importância em transformar a sala de aula em um espaço que promova a inclusão social.

Qual a importância de incluir no ensino de inglês temas relacionados ao mundo LGBTQIAP+?

Akemi Iwasa (AI) — Incluir a diversidade em geral no ensino de uma língua estrangeira é, em primeiro lugar, lecionar com um olhar de respeito aos direitos humanos. Quando falamos em questões LGBTQIAP+ especificamente, tratamos do direito de cada um assumir e viver sua própria sexualidade. E as aulas de inglês abrem oportunidade para abordar esse assunto de maneira crítica. Tratar da diversidade sexual é uma forma de capacitar os estudantes a se expressarem melhor, considerando a realidade do mundo em que vivemos, no século XXI. 

Em que isso difere do ensino tradicional?

AI — A diferença aparece tanto no material didático quanto na condução das aulas, por exemplo na exploração de imagens. Os livros costumam trazer fotos ou figuras de famílias — mas é comum que sejam famílias com a configuração tradicional, com o pai caracterizado como pertencente ao gênero masculino, e a mãe, ao gênero feminino. Já a imagem de uma família com dois pais ou duas mães, pode provocar estranhamento entre alguns estudantes. A mesma reação pode surgir quando os jovens são convidados a descrever a foto de uma pessoa trans. É comum, nesses casos, que mesmo aqueles que não expressam discriminação explícita sintam dificuldade em escolher substantivos e pronomes para pessoas com orientação sexual ou identidade de gênero que escapam do binário masculino-feminino.

Como essas questões são colocadas em aula?

AI — A ideia é fazer um trabalho consistente, aula a aula, aproveitando os comentários que eventualmente surjam como ponto de partida para um debate. Um comentário pode soar, inicialmente, como uma opinião, mas carregar ofensas. No exemplo anterior, qualquer comentário negativo sobre famílias de constituição diferente da tradicional pode ser ponto de partida para um debate: por que você acha estranho haver famílias diferentes? De onde vem essa ideia? Assim como acontece no caso da língua portuguesa, em inglês também devemos aprender termos e a escolher as palavras de maneira respeitosa. Não se trata de julgar a pessoa que faz o comentário negativo ou pejorativo, mas de desafiar seu pensamento, encorajar uma linha de raciocínio que a leve a perceber a discriminação que ali existe.

Então o ensino com diversidade está voltado especificamente para estudantes que não pertencem ao grupo LGBTQIAP+?  

AI — Não apenas. Ao mesmo tempo em que levamos os estudantes a analisar temas de desigualdade social, também damos àqueles que pertencem ao grupo LGBTQIAP+ a chance de se expressar. Podemos dizer que tratamos da diversidade com duas abordagens: a de janela, que diz respeito à empatia, abrindo em todos o olhar para uma discriminação embutida de tal forma na cultura que pode nem ser percebida e reconhecida — o que chamamos de preconceito estrutural. E a segunda abordagem, de espelho, voltada para a representatividade dos jovens que pertençam ao grupo discriminado. Aliás, existem iniciativas para o ensino de inglês voltado para o grupo LGBTQIAP+, como o projeto English to Trans-form. Desenvolvido na Casa 1, um centro de cultura e acolhimento para pessoas LGBTQIAP+ e outros grupos regularmente discriminados, em São Paulo, o projeto foi criado pelo professor Paolo Capistrano e aborda as questões de gênero sob o enfoque da autoestima, com imagens e debates que valorizam a diversidade sexual. Além dos aspectos linguísticos e culturais, trabalhamos também com informações práticas importantes para esse grupo — por exemplo, o que é um nome social, como adotar um novo nome de acordo com a identidade de cada um, a que órgãos públicos se recorre para isso. 

Mas o conceito de diversidade vai além das questões LGBTQIAP+, certo?

AI — Sim, há outros temas fundamentais em que se pode discutir diversidade, como a discriminação étnico-racial e socioeconômica. Alguns livros trazem conteúdo classista e elitista. Vou voltar ao exemplo da imagem da família. Se a família é branca e está num ambiente de aeroporto, pronta para embarcar, pode-se perguntar: qual o significado dessa imagem para o aluno negro, pardo ou indígena? E para aquele jovem em desvantagem, que não vê as viagens como possibilidade imediata? Como esses estudantes se veem representados no material didático e nas aulas? O ensino que leva em conta a diversidade se preocupa com essas diferenças, buscando que cada aluno reconheça sua realidade particular. 

Então trabalhar a diversidade nas aulas passa fundamentalmente pelo conceito de justiça social.

AI — Exatamente. Despertar os estudantes para as diferenças e analisar as razões dos preconceitos ajuda-os a se localizar no mundo. O mesmo acontece com a representatividade de jovens de grupos discriminados, quando trabalhamos sua autoestima. Todos temos de entender esse mundo do século XXI e encontrar nosso lugar nele. Temos, principalmente, de perceber como podemos mudar esse mundo para melhor.

 

O que significa LGBTQIAP+

A longa sigla nomeia o grupo de pessoas que não se reconhecem na orientação sexual ou identidade de gênero convencionadas como únicas pela sociedade (orientação heterossexual e gêneros masculino e feminino). Existem pequenas variações na definição de cada termo. Aqui você encontra alguns dos significados mais comuns, usados no dia a dia e na imprensa.

L — lésbicas, mulheres cis ou trans que se sentem atraídas afetiva e sexualmente por outras mulheres.

G — gays, homens que se sentem atraídos por outros homens.

B — bissexuais, pessoas que têm atração afetivo-sexual tanto por homens quanto por mulheres.

T — transexuais, aqueles que não se identificam com o gênero definido ao nascimento. A letra T pode se referir, também, a transgênero e a travestis.

Q — Queer, termo inglês para a pessoa que não se sente totalmente homem, nem totalmente mulher, mas transita entre diferentes gêneros.

I — Intersexuais, aqueles cujas características biológicas não permitem incluí-los na categoria binária de gênero masculino ou feminino. 

A — Assexuais, pessoas que não sentem atração sexual por qualquer outra pessoa.

P — Pansexuais, indivíduos que são atraídos por pessoas de qualquer identidade de gênero ou orientação sexual. 

+ — Sinal que inclui no grupo outras orientações sexuais ou identidades de gênero.