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Minha experiência: O desafio de envolver os professores na abordagem decolonial

Atualmente, sou professor assistente da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), no campus Parnaíba. Mas, nas experiências que tive como gestor na educação básica e em cursos livres de inglês, considero que um dos principais desafios foi envolver os docentes nessa perspectiva. 

Nesse sentido, o trabalho do gestor é mostrar que, se há 20 anos não se falava desses assuntos, hoje em dia isso faz sentido, se queremos pensar de uma maneira mais ampla, que vai além do ensino da língua em si e envolve aspectos culturais, e deslocar determinados padrões — por exemplo, a ideia de que aprendemos inglês apenas para nos comunicarmos com falantes nativos dos Estados Unidos (EUA) e do Reino Unido.

O objetivo é mostrar para os professores que, a partir do momento que desenvolvemos o senso crítico sobre de que maneira essa língua é utilizada para perpetuar determinados estereótipos e formas de controle linguístico e geográfico, evidenciamos para os estudantes que usar a língua inglesa também é uma forma de interromper determinadas leituras do mundo

Os alunos começam a perceber, por exemplo, que países de língua inglesa como Nigéria, Zimbábue e Jamaica podem ter mais semelhanças culturais com o Brasil do que os EUA ou a Europa. E, ainda, considerar essas nações como lugares importantes e produtores de conteúdos, significados e sentidos.

E isso gera repercussão, pois eles passam a questionar outros espaços. Vão perguntar para o professor de geografia, por exemplo, porque não aprenderam sobre essas nações. E começam a ver que o professor de inglês sabe de outras coisas além da sua disciplina, pois o conhecimento não é algo fechado.

Nos trabalhos que realizei acompanhando estagiários, havia uma resistência menor a essa abordagem. Porém, muitos chegavam com uma visão de estudo da língua com foco somente na parte gramatical, sintática e morfológica, que são aspectos importantes, mas não podemos reduzir a língua a isso. 

Nesses casos, nas nossas reuniões semanais, eu os questionava e os levava a pensar como eles próprios aprenderam, se a experiência foi positiva e como hoje eles poderiam torná-la mais crítica para os seus alunos e não apenas repetir o que vivenciaram quando eram estudantes.

Já os professores mais experientes ficavam mais na defensiva, pois aquilo mexia com a formação deles e os deixava desconfortáveis. E como conseguiram ensinar inglês durante tanto tempo daquela maneira, eles pensavam que não tinham necessidade de fazer diferente. Muitos tinham preocupações com resultados imediatos e nota, e consideravam que, se aquilo não melhoraria o desempenho do aluno nesse sentido, não haveria necessidade de ser feito.

Entre as iniciativas que realizamos, nos eventos que a escola organizava, como feiras científicas, culturais e apresentações, sempre buscamos trazer reflexões nesse sentido. 

Em uma ocasião, fizemos uma mostra de artes. Os alunos tinham que recriar pinturas a partir de obras famosas e fazer as descrições em língua inglesa. Foi uma atividade interessante para perceberem que a arte não se restringe a pinturas consagradas e que podem existir vários tipos de arte. 

Uma maneira que considero que também incentiva esse tipo de reflexão é dar liberdade para os professores criarem seus próprios conteúdos e abordagens, assim, eles não apenas seguem o manual do professor ou o material pronto.

Em relação ao material didático, uma situação comum, especialmente em escolas de idiomas, é  trazer falantes de países não hegemônicos, como Índia ou Paquistão. Mas, apenas ter os áudios desses personagens não resolve o problema. É muito mais enriquecedor mostrar que eles poderiam trabalhar com o assunto de uma maneira mais crítica. Por exemplo, levando os alunos a questionarem porque essas pessoas falam assim, que países são esses, como são suas histórias e onde eles estão localizados.

Uma forma de fazer isso é incentivar os docentes a usarem vídeos — TedTalks e também vídeos temáticos do YouTube — com falantes de diferentes países. Assim, é possível abordar não apenas a questão gramatical, que tanto preocupa o pessoal no ensino, mas também desenvolver um trabalho com vocabulário, pronúncia e sotaque. 

E quando esses países aparecem no material didático como locais exóticos ou turísticos, uma possibilidade é inserir um outro olhar e mostrar que são nações que também têm problemas como o Brasil — também há fome, violência e preconceito contra grupos minoritários. 

Muitos gestores acabam deixando isso de lado, porque têm tantos outros problemas para resolver no dia a dia e acabam não dando atenção para essas coisas. Às vezes, não querem ouvir ou se recusam a pensar nesses assuntos, porque consideram desnecessário.