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Minha experiência: Formação docente para uma maior representatividade de raça e gênero no ensino de inglês

Maria Carolina Almeida de Azevedo é professora de inglês da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e faz mestrado em Educação em Diversidades e Relações Étnico-raciais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ela foca seu trabalho na questão da representatividade das temáticas de raça e gênero no ensino de inglês e realiza um trabalho para a inclusão de meninas e negros no ensino de inglês com os professores pelo British Council.

“A formação em raça e gênero, para mim, passa, primeiramente, por uma necessidade pessoal, que, posteriormente, transborda para preencher as lacunas da formação docente e da prática em sala de aula. Como mulher negra e professora de Inglês, me incomodava demais estar entre meus pares e não haver um comentário sequer sobre as ausências que eu percebia no ensino da língua”.

Ela relembra que, durante a sua própria formação, não se falava de racismo, além de o enfoque ser único e exclusivo nas variantes estadunidense e britânica da língua inglesa. Assim, só estavam presentes os ícones das culturas europeias, enquanto os estereótipos da população negra continuavam a ser estampados nos livros, como a mulata, o esportista, a baiana, as Américas Latina e do Sul como exóticas e a África como miserável e necessitada de socorro. 

“Aquilo me intrigava demais, pois havia um silêncio absoluto e uma ideia de neutralidade entre os colegas de profissão que precisava ser criticada. Foi quando comecei a buscar formação na temática racial e sobre a História da África. Dessa forma, pude descobrir o quanto nos esconderam sobre a riqueza e abundância das histórias do continente africano, bem como o cenário e a história que havia detrás do racismo que fundou a sociedade que hoje conhecemos”, relata Maria Carolina.

Quando ela começou a inserir os temas relacionados à raça e ao gênero no ensino de inglês, percebeu não apenas o encantamento e a participação dos alunos negros, mas também a descoberta dos alunos brancos pelas outras versões de aprendizado na língua inglesa. Houve ainda quem tenha estranhado ou rejeitado, afinal não é comum se falar de realeza africana em aulas de língua inglesa, mas ela diz que a aceitação por grande parte dos alunos é bem positiva. 

“E quanto aos alunos negros, a ideia é realmente trazer outras formas de ser e estar no mundo, proporcionada por uma representatividade afirmativa da população negra, que não contemple os estereótipos propagados pelo senso comum”, completa a professora.

“Desde que iniciei meus estudos em relações étnico-raciais, anseio por trabalhar com formação de professores de inglês nessas temáticas e, com o convite do British Council, pude realizar essas formações por meio de workshops”, conta Maria Carolina.

O objetivo é levar aos professores de inglês alguns apontamentos sobre raça, racismo e interseccionalidade. Mostrar também como essas questões estão presentes no ensino de língua inglesa e de que forma é possível trazer a diversidade étnico-racial para a sala de aula, a fim de proporcionar visibilidade e protagonismo às culturas majoritariamente subalternizadas em nossa sociedade, como a africana e a indígena.

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Evento faz parte das ações do programa UK-Brazil Skills for Prosperity

A ideia do trabalho é, dessa forma, levar aos alunos reflexões críticas sobre o ensino do idioma para que se tenha uma educação mais humanizada e equitativa. “Tivemos um retorno muito positivo dos participantes, pois ainda são poucos os espaços que propiciam esse tipo de reflexão e formação para professores de Inglês. A maioria desconhecia alguns temas, já outros tinham conhecimentos superficiais sobre algumas questões. A participação deles foi muito positiva e contagiante, e terminei satisfeita por poder dividir outras formas e conteúdos que contribuirão com novas práticas pedagógicas e outro pensar no ensino do idioma, já que o ‘mais do mesmo’ não nos cabe mais”, frisa Maria Carolina.

 

Créditos imagem: Joyce Cury / Banco de imagens Fundação Lemann

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