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Minha experiência: Desafios e oportunidades do ensino de inglês para alunos com deficiência

Sou professora de inglês desde 2016 e leciono para crianças de 5 a 6 anos, que é a faixa etária da pré-alfabetização. Como atualmente temos uma política de inclusão nas escolas regulares, é comum recebermos alunos com algum transtorno ou diagnóstico específico, que demandam uma adaptação do currículo e das práticas pedagógicas. Assim, eu já dei aula para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e TOD (Transtorno Opositivo-Desafiador). Também tenho um filho de 3 anos diagnosticado com TEA.

Eu considero que, dentro do currículo de uma escola regular, quando você tem uma língua estrangeira em adição a esse currículo, isso se torna um ponto desafiador para as crianças com esse tipo de diagnóstico, porque existe a barreira da comunicação. Mas, ao mesmo tempo, também se revela uma oportunidade que, se bem trabalhada, só tem a contribuir para o desenvolvimento desses alunos.

Quando você está ensinando uma outra língua e desenvolvendo essa outra aquisição linguística, existe uma série de técnicas, atividades e comportamentos que acabam estimulando essas crianças. Além disso, um professor de língua estrangeira já tem normalmente a habilidade da escuta um pouco mais desenvolvida. Isso porque ele já trabalha a comunicação não focada apenas naquilo que o aluno fala, mas também no seu movimento corporal e naquilo que ele quer dizer. Esses fatores estimulam o desenvolvimento dessas crianças. 

Não há comprovação científica que crianças com esses transtornos tenham mais dificuldade de aprendizado de uma segunda língua — pelo contrário, todos os meus alunos com algum tipo de transtorno conseguiram adquirir a língua inglesa de uma forma muito natural e ser alfabetizados em inglês. Fizeram o biletramento, a alfabetização bilíngue, sem nenhum problema. 

Claro que isso depende do grau de comprometimento e se há comorbidade. Por exemplo, uma criança pode ser autista e ter outras comorbidades ou não. Mas depende da escola entender a necessidade de ter um plano individualizado para aquele aluno. A adaptação do currículo e das práticas pedagógicas e de avaliação é fundamental para conseguir abraçar esses estudantes. Por exemplo, se minha meta é que determinada classe esteja totalmente alfabetizada e já consiga ler e fazer rimas, para aquele aluno a meta pode ser outra. 

Estratégias pedagógicas

No processo de ensino e aprendizagem dessas crianças, considero que a melhor estratégia é você escutar e prestar atenção no aluno, no que ele tem a dizer. A partir disso é que você vai montar o seu plano de ensino.

Eu tinha um aluno autista que estava com muita dificuldade e conseguia contar apenas até três em inglês. Eu já tinha usado todas as táticas possíveis e nada funcionava. Conversando com ele, vi que ele gostava de máquinas. Aí mostrei um relógio antigo de ponteiro com um pequeno motor atrás. Ele adorou, e aí eu o ensinei a ver as horas, e ele aprendeu a contar com o relógio.

Também tive um aluno com TDAH que não conseguia ficar parado. Perguntei e comecei a observar o que o deixava mais tranquilo e fizemos um acordo — ele realizava uma atividade e depois podia brincar na quadra; fazia outra atividade e brincava por mais cinco ou dez minutos. 

Então, é preciso ser muito receptivo, ter a mente muito aberta e a disposição de adaptar o seu trabalho. Mas, para isso, é necessário ter tempo e suporte da escola. Professores e coordenação precisam sentar juntos e planejar. Tem que pensar em cada caso, conversar com a criança e desenvolver uma estratégia. Às vezes, não dá certo e temos que começar de novo. Isso, sem falar que, muitas vezes, o professor tem que dar conta de uma sala de aula com muitas crianças e não tem um assistente. Ou, ainda, tem a resistência dos pais que não abrem o diagnóstico. E também a pressão de outros pais que acham que aquela criança está atrapalhando o andamento da classe.

Avaliação e acompanhamento

A avaliação desses alunos é um grande desafio, principalmente em um sistema de ensino de testes padronizados como o que temos, com provas e vestibulares.

Eu acho que a avaliação tem que ser feita de forma diferente, olhando como e o que esse aluno aprendeu. Se ele aprendeu a contar com um relógio, como vou avaliá-lo numa avaliação padrão de matemática? A forma de avaliação precisa mudar para atender esse aluno. Há crianças, dependendo do grau do transtorno, que conseguem se adequar e fazer a mesma avaliação dos demais. Mas há casos em que uma adaptação é necessária.

Um aluno disléxico, em um spelling test, talvez precise de mais tempo do que os outros estudantes, porque ele demora mais para conseguir processar aquela informação. Um aluno com TEA talvez tenha a necessidade de realizar uma avaliação em uma sala separada, pois um local com muita gente ou com um barulho alto de um ventilador, por exemplo, pode incomodá-lo.

Essa é uma questão complexa porque as escolas também têm dificuldade para se adaptar, devido ao próprio sistema de avaliação padronizado que elas adotam. Ou seja, o problema está muito mais na base do que só dentro da sala de aula. A sala é reflexo de um problema maior, do próprio sistema de ensino e avaliação.